Por Machado de Assis (1994)
D ANT. Não a matarei. Amores fáceis de curar são esses que aí brotam no meio de galanteios e versos. Versos curam tudo. Só não curam a honra os versos; mas para a honra dá Deus um rei austero, e um pai inflexível... Até à vista, Senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda ) .
CENA XV
D. MANUEI DE PORTUGAL, CAMÕES
D. MAN. Perdido... está tudo perdido. (CAMÕES entra pelo fundo) Meu pobre Luís! Se soubesses...
CAMÕES Que há?
D. MAN. El-rei... El-rei atendeu às súplicas do Senhor D. Antônio. Está tudo perdido.
CAMÕES E que pena me cabe?
D. MAN. Desterra-vos da corte.
CAMÕES Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...
D. MAN. (aquietando-o). Não direis nada; não tendes mais que cumprir a real ordem, deixai que os vossos amigos façam alguma cousa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vós não fareis mais do que agravá-la.
CAMÕES Desterrado! E para onde?
D. MAN. Não sei. Desterrado da corte é o que é certo. Vede... não há mais demorar no paço. Saiamos.
CAMÕES Aí me vou eu, pois, caminho do desterro, e não sei se da miséria! Venceu então o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida o Caminha? Pode ser, tudo pode ser... Desterrado da corte? Cá me ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades. Crede, Senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas saudades cá me ficam.
D. MAN. Tornareis, tornareis...
CAMÕES E ela? Já o saberá ela?
D. MAN Cuido que o Senhor D. Antônio foi dizer-lho em pessoa. Deus! Aí vêm eles.
CENA XVI
OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAIDE
(D. ANTÔNIO aparece à porta da esquerda, trazendo
D. CATARINA pela mão. D. CATARINA (vem profundamete abatida).
. CAT. (à parte vendo CAMÕES). Ele! Dai-me forças, meu Deus!
(D. ANTÔNIO corteja os dois esegue na direção do fundo.
CAMÕES dá um passo para falhar-lhe mas
D. MANUEL contém-no,
D. CATARINA, prestes a sair, volve a cabeça para trás).
CENA XVII
D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES
CAMÕES Ela aí vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?
D. MAN. Não. Saiamos!
CAMÕES Vamos lá; deixemos estas salas que tão funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro) Ela aí vai, a minha estrela, aí vai a resvalar no abismo, donde não sei se a levantarei mais... Nem eu... (voltando-se para D. MANUEL) nem vós, meu amigo, nem vós que me quereis tanto, ninguém.
D. MAN. Desanimais depressa, Luís. Por que ninguém?
CAMOES Não saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no coração. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida, apagou-se agora mesmo e de uma vez.
D. MAN. Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi los-ei a...
CAMÕES A quê? A mortificarem um camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro,
que já estará caminho de África?
D. MAN. Ides à África?
CAMÕÉS Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei se morrer... África, disse eu? Pode ser que Ásia também, ou Ásia só; o que me der na imaginação.
D. MAN. Saiamos.
CAMÕES E agora, adeus, infiéis paredes; sede ao menos compassivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D. Manuel) Credes que tenho vontade de chorar?
D. MAN. Saiamos, Luís!
CAMÕES. E não choro, não; não choro... não quero... (Forcejando por ser alegre) Vedes? até rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, Ásia é melhor; lá rematou a audácia lusitana o seu edifíclo, lá irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta quimera, esta cousa que me flameja cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho, Senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes navegados, uma figura rútila, que se debruça dos balcões da aurora, coroada de palmas indianas? É a nossa glória, é a nossa glória que alonga os olhos como a pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o ósculo que a fecunde; nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da Imortalidade, para dizê-la aos quatro ventos do céu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz) Nenhum... (Pausa, fita D. MANUEL como se acordasse e dá de ombros) Uma grande quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.
* O DESFECHO dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde é o objeto da comédia, desfecho que deu lugar à subseqüente aventura de África, e mais tarde à partida para a Índia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos. Não pretendi fazer um quadro da corte de D. João III, nem sei se o permitiam as proporções mínimas do escrito e a urgência da ocasião. Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e, por assim dizer, póstumas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.