Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

— E sou, disse ela reclinando-se molemente no sofá; andorinha curiosa de ver o que há além do horizonte. Vale a pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado.

— Não vale, respondeu Félix, sorrindo; esgota-se depressa a sensação daquele momento rápido; a imaginação ainda pode conservar uma. leve lembrança, até que tudo se desvanece no crepúsculo do tempo. Olhe, os meus dous pólos estão nas Laranjeiras e na Tijuca; nunca passei destes dous extremos do meu universo. Confesso que é monótono, mas eu acho felicidade nesta mesma monotonia.

Lívia entrou a combater isto que lhe parecia um insigne paradoxo, mas sem que nenhuma de suas palavras mostrasse a mais leve sombra de pedantismo. Tinha uma maneira natural e simples de dizer as cousas menos vulgares deste mundo. Sabia exprimir as suas idéias em frase elegante, mas despretensiosa.

O prelúdio de uma valsa chamou a atenção dos dous para o baile. Félix convidou-a para valsar; ela desculpou-se, dizendo que se achava cansada.

— Vi-a valsar quando entrei, disse Félix, e afirmo que poucas pessoas valsarão tão bem. Creia na sinceridade do elogio, porque eu não os faço nunca.

A moça aceitou este cumprimento com ingênua satisfação.

— Gosto muito da valsa, disse ela. Não admira: é a primeira dança do mundo.

— Pelo menos é a única dança em que há poesia, acrescentou Félix. A quadrilha tem certa rigidez geométrica; a valsa tem todo o abandono da imaginação. — Justamente! exclamou Lívia, como se Félix lhe tivesse reunido em poucas palavras todas as suas idéias a respeito daquele assunto.

— Demais, continuou o doutor, animado pelo entusiasmo da viúva, a quadrilha francesa é a negação da dança como o vestuário moderno é a negação da graça, e ambos são filhos deste século que é a negação de tudo.

— Oh! murmurou ela sorrindo.

E o protesto não foi só com os lábios, foi também com os olhos - uns olhos aveludados e brilhantes, feitos para os desmaios de amor. Félix começou a sentir-se bem ao lado daquela moça, e esquecendo de boa vontade a festa em que só aparentemente figurava, ali se demorou longo tempo com ela, alheio aos comentários estranhos todo entregue ao capricho do seu próprio pensamento.

Todavia, escapou-lhe, no meio da conversa, não sei que frase de melancólico cepticismo que fez estremecer a moça. Lívia olhou para ele e depois para o chão, parecendo tão absorta que nem deu pelo silêncio que se seguiu ao seu gesto e às palavras de Félix. Este aproveitou a circunstancia para examiná-la melhor.

Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma cousa semelhante à tranqüilidade da força. Nenhum gesto seu revelava o amor-próprio geralmente inseparável das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razão de harmonia e de ordem nas cousas terrestres. Afear as suas graças, parecia-lhe um crime, tirar orgulho delas, frivolidade.

Félix examinou-lhe detidamente a cabeça e o rosto, modelo de graça antiga. A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos percebem antes do contacto das mãos. Na testa lisa e larga, parecia que nunca se formara a ruga da reflexão; não obstante, quem examinasse naquele momento o rosto da moça veria que ela não era estranha às lutas interiores do pensamento: os olhos, que eram vivos, tinham instantes de languidez; naquela ocasião não eram vivos nem languidos; estavam parados. Sentia-se que ela olhava com o espírito.

Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se a apanhar-lho.

— Obrigado, murmurou ela distraída.

Depois, parecendo envergonhada daquele longo silêncio, pretextou um incômodo nervoso; levantaram-se e dirigiram-se ao salão. Ali, no meio da conversa e do bulício, readquiriu ela o império de si mesma, e conversaram largamente com volubilidade e galanteria. A viúva era um pouco sarcástica, mas daquele sarcasmo benévolo e anódino, que sabe misturar espinhos com rosas. Pela primeira vez Félix a conhecia, porquanto apenas a tinha visto duas vezes, e não basta ver uma mulher para a conhecer, é preciso ouvi-la também; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a não conhecer jamais.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →