Por Machado de Assis (1872)
Para os outros pais foi um fausto acontecimento; era o noivo rico que convinha prender de algum modo. Por isso foi grande a afluência de senhoras à missa do sétimo dia. Lá estavam Madalena e Augusta.
Quando, no fim da missa, começou a cerimônia dos pêsames, Daniel recebia-os maquinalmente e sem dar sinal de si. Não aconteceu o mesmo, quando Augusta se aproximou dele e murmurou algumas palavras de consolação; não contava que ela estivesse na igreja.
Todavia, nem o estado dele, nem o lugar eram próprios para maiores espantos. A moça seguiu a mãe, e Daniel ouviu as consolações do resto dos assistentes. Valadares convidou Daniel para ir passar alguns dias em casa dele; apesar das recusas, tanto instou que Daniel cedeu, e para iá foi mesmo dali.
A morte do velho Marcos punha nas mãos de Daniel uma magnífica fortuna. Não contando com ela tão cedo, o rapaz não sabia em que empregá-la. A mulher de Valadares aconselhou-lhe uma viagem à Europa como coisa de maior proveito. Este conselho provocou entre o marido e a mulher uma pequena discussão que ia terminando por um ataque de nervos, desenlace seguro de muitas tragédias domésticas.
A idéia de viagem, também, não agradou a Daniel.
— Afinal, disse ele, a minha situação é a mesma, a diferença é que eu hoje administro aquilo que outrora fruía simplesmente.
— Por isso, digo eu, atalhou Amélia, como os trabalhos de administração são enfadonhos, procure uma companheira. Olhe, eu creio que tenho uma... que não se lhe dava de...
— Quem é? perguntou Daniel.
— A Augusta B...
Daniel franziu a testa. Acreditou que a solicitude da moça, indo à missa, era simplesmente um cálculo. Figurava-lhe um espírito altivo, e saía-lhe uma mulher interesseira. Acaso a mulher de Valadares adivinhou esta impressão de Daniel? O certo é que imediatamente acrescentou:
— Mas repare que isto é lembrança minha; ela não me disse coisa alguma. Creio que até não seria coisa fácil; porque me parece orgulhosa demais...
— Parece-lhe isso?
— Sim. No entanto, se quiser que eu lhe fale....
— Oh! não! não tenho vontade de casar.
De casar, creio que Daniel não tinha vontade nenhuma, mas nem por isso a lembrança de Augusta deixava de preocupá-lo. Havia naquela moça um mistério que ele queria aprofundar. A ocasião era boa para aproximar-se dela. Já haviam decorrido vinte dias depois da missa fúnebre. Daniel resolveu ir visitar a família de Augusta para agradecer lhe a presença no ato religioso, tanto mais de agradecer quanto não se ligavam por estreitos laços de amizade.
Só as duas senhoras estavam em casa, quando se anunciou a visita de Daniel. Augusta desapareceu da sala pouco antes de entrar o rapaz, que apenas encontrou Madalena, com quem travou uma conversa de cerca de meia hora. Durante esse tempo todo, Augusta não apareceu na sala. O rapaz esperou ainda alguns minutos, mas vendo que não chegava, levantou-se para sair.
— Espero, disse Madalena, que não será esta a última vez que nos honre com a sua visita.
Daniel curvou a cabeça, agradecendo.
Depois, apertou a mão de Madalena e dirigiu-se para a porta, justamente no momento em que Augusta entrava na sala.
Cumprimentaram-se friamente.
Daniel saiu.
VIII
— Por que não vieste à sala mais cedo? perguntou Madalena a Augusta.
— Tive uma vertigem; não podia vir, respondeu a moça.
— Foi pena, porque este moço é muitíssimo amável; passei meia hora agradavelmente.
— Foi pena! murmurou a moça, disfarçando um sorriso que lhe estava a brincar nos lábios.
Não disfarçou tanto que a mãe o não percebesse.
Há alguma coisa, pensou ela.
Augusta não lhe disse mais nada; mas quem pudesse penetrar no seu espírito, ouviria a seguinte reflexão:
— São todos os mesmos!
Reflexão que aliás não esclarece muito a situação. É provável que pelo romance adiante compreendamos essas palavras interiores de Augusta.
IX
O casamento é a perfeita união de duas existências; e mais do que a união, é a fusão completa e absoluta. Se o casamento não é isto, é um encontro fortuito de hospedaria; apeiam-se à mesma porta, escolhem o mesmo aposento, comem à mesma mesa, nem mais, nem menos.
Este é o casamento mais comum. O outro o legítimo, o raro, esse é outra coisa que não isto. A religião santifica o casamento, mas supõe sempre a existência anterior de um elo tão sagrado como o do altar.
Não se parecia com este o casamento de Valadares. Casou o rapaz por motivos alheios ao coração: primeiramente, por interesse, depois por novidade. O casamento foi para ele uma espécie de passeio ao Corcovado. Ora, todos são de acordo que do Corcovado se goza uma vista magnífica, mas a ninguém lembrou ainda a idéia de lá fundar uma cidade. Ninguém lá fica; sobe-se, goza-se, desce-se.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.