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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta

Por Machado de Assis (1867)

A moléstia progredia até que se declarou perigosa. A ciência foi impotente diante do princípio do mal que lavrava, até que um dia, no dia em que a Igreja celebra o nascimento do Salvador, poucas horas antes de morrer, o moço contou esta história ao sábio doutor que tratava dele.

XI

Que me diz a esta história?

— Digo que o ouvi a custo. Eu já sabia alguma coisa, mas não sabia tão completamente. Mas que necessidade tinha de me referir essas coisas. Olhe, está pior, a tosse está mais forte, vejo-o mais pálido e abatido. Foi imprudência...

— Não foi. Eu desejava que o doutor ficasse sabendo de mais uma história destas que de tão vulgares são algumas vezes tão funestas.

— Mas diga-me...

— O quê, doutor?

— Se as coisas todas que me contou tivessem uma explicação, explicação razoável, honesta; se em vez de monstro, Carlota fosse um anjo, viveria?

— Um anjo? do mal!

— Mas enfim...

— Não sei.

— Há de viver. Se alguma coisa houver que o possa fazer, visto que nem a ciência, nem os conselhos dos amigos podem fazê-lo sair desse abatimento em que está, acredite que empregarei os meus esforços para lhe dar esse remédio supremo.

— Veja sempre...

— Eu lhe prometo. Entretanto, ainda uma vez lhe peço, não se deixe perder nessas recordações angustiosas do passado; seja homem, e principalmente seja filho!...

— Minha mãe! ...

— Seja filho. Lembre-se que ela não poderá resistir...

— Sinto passos, doutor...

— É ela!

— Oh! minha mãe!

Minha mãe está mais pálida que eu. Interroga o doutor com o olhar, e este abaixa os olhos. Que haverá entre ambos?

— Onde vai, doutor?

— Vou sair. Até já.

— Volta?

— Volto. Mas espere, tome já este remédio.

— Então, doutor, como acha meu filho?

— Vou consultar alguns colegas e cá virei com eles. Talvez se possa fazer alguma coisa. Até já. Coragem, meu doente!

XII

São cinco horas da tarde.

Minha mãe foi descansar um pouco. Coitada! passou a noite em claro, e durante todo o dia de hoje não parou um instante.

O doutor ficou de voltar e voltou com mais dois médicos. Examinaram-me e resolveram que eu não estava tão perigoso como parecia. Depois assentaram no medicamento que se devia empregar. Uma das cláusulas que me impõem é ir tomar ares. Não sei se o faça. Eu creio que eles todos se enganaram acerca do meu estado.

Daqui a pouco estará findo o dia e com ele a minha vida, talvez. Estou pior. Sinto uma opressão que me incomoda; minha mãe aconselhou-me que me deitasse, mas eu não posso; quero morrer como homem.

Tenho necessidade de escrever. Quero derramar a minha última gota de poesia no papel, e deixar ao mundo ao menos uma lembrança de que fui mártir e poeta. Será este o canto do cisne.

Que direi?

Sinto a cabeça pesada; e o meu espírito mal pode aplicar-se ao que a minha vontade o solicita. Ah! já nem sou poeta! Musa ardente dos tempos da felicidade e do sossego, onde paras agora que não vens reclinar-te, como outrora, à cadeira do teu poeta infeliz? Alguém chega... Guardemos estes papéis... Quem é? Minha mãe!...

— Eu e mais alguém, meu filho.

— Quem?

— Tens coragem?

— Por quê, minha mãe?

— Para o que vais ver?

— É a morte?

— É a vida.

— Mande entrar a vida, minha mãe.

XIII

Olhei, era... era Carlota.

— Carlota!

Recuei até à cama. Vi entrar uma mulher magra, abatida, doente; com os olhos fundos e ardentes de febre. Vê-se que o remorso dilacera aquela alma. Vê-se que ela pena os pecados em que caiu.

Parou à porta, e com as mãos magras, mas ainda belas, comprime o seio ofegante. Tem os olhos baixos como de vergonha. Parece pregada ao lugar em que ficou. Nem eu nem ela podemos falar. Minha mãe toma-lhe a mão e trá-la para junto da janela.

— Não é uma criminosa que vem implorar perdão, disse-me Carlota.

— Pois quem é?

— Ah! eu não quero perder tempo em longas explicações... Venho dizer-lhe que se a sua vida depende da declaração de que eu o amo, pode morrer; porque eu não posso fazer essa declaração. Mas se é razão para viver a certeza de que, no dia em que o repeli, ainda o amava, e que casando com aquele que é hoje meu marido eu ainda o tinha na memória, viva; porque isto é verdade.



(continua...)

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