Por Coelho Neto (1890)
— Sinhá! Quem seria a solícita criatura?! Alguma formosa mulher, sem dúvida; talvez a musa reinante do romancista. E que lhe havia de mandar dizer?
— Olha, dize-lhe que estou passando mal. Torci um pé justamente quando me vestia para ir jantar. Como vai ela?
— Ela tá boa. Então vosmicê não vai?
— Não posso. Dize-lhe que estou impossibilitado de sair.
— Sim, sinhô. E a imensa mulher moveu-se na sombra pesadamente e foise. Quem será?! — pensou de novo Anselmo olhando tristemente para os pés, como um pavão. Sinhá!?..
Mas... por onde andarão os meus sapatos!? E, conjeturando, debruçou-se à janela, já aflito, vendo chegar a treva sem que, ao menos, tivesse à mão, para alumiar o aposento, uma reles candeia. Como, porém, o almanaque anunciava para a noite seguinte lua cheia contava com a presença clara do astro.
Efetivamente uma luz pálida foi-se desdobrando e branqueando os muros, entrou pela janela, foi até ao fundo do quarto pondo uma fronha alvíssima no travesseiro do leito e uma piedosa mortalha sobre os mortos de A Barricada. O corredor cimentado ficou mais branco que o mármore e os grilos, enlevados, cantaram nas frinchas dos muros enquanto os morcegos, trissando, passavam no ar sossegado que os jasmins abertos perfumavam.
Anselmo começava a sentir as exigências do estômago, o ventre tirânico mandava-lhe recados ao cérebro.
— Acordou a jibóia! disse, como se falasse à lua. Efetivamente a jibóia acordara e a tempo, valha a verdade, visto como o primeiro repasto fora às onze da manhã e, como era verão, dos dias longos, era justo que, a horas tão adiantadas da tarde, tendo digerido, ela reclamasse nova ração. Mas como havia ele de acudir à fome se não se podia mobilizar preso, como estava, pelos pés?
Entrou em cólera surda invectivando o romancista e ia já transpondo o terreno vil da injúria quando ouviu passos arrastados e reconheceu a alentada mulher, que vinha, de novo, pelo corredor, anunciada por alegre retinir de louças, precedida de suave aroma de guisados, mais grato que o dos jasmins abertos.
Era ela, a desconforme criatura, e trazia uma bandeja coberta por uma toalha alva como o luar. Deu com ele à janela e, sem falar, sorrindo, passou a porta e depôs sobre a bojuda pasta a abastecida bandeja.
— Sinhá mandô dizê qui vosmicê não arrepare... Mas cumu vosmicê disse qui não podia sahi móde o seu pé...
— Oh! fez ele descobrindo, com veneração, a bandeja, é muito amável. Sim, era amável a misteriosa dama e devia ter um cozinheiro perito.
A sopa era dourada e recendia. Por certo lá ao alto, no luminoso e calmo espaço, todo cheio do esplendor do astro, chegou o perfume porque a lua, dividida em partículas como uma hóstia, veio boiar nos olhos que cintilavam, como ardentias, sobre a superfície da sopa tão dignamente contida em uma tigela de porcelana da China. Havia uma fritada, um triângulo fofo e louro, incrustado de camarões, tendo no vértice uma gorda azeitona de Elvas; um prato de cabidela, fatias sangrentas de roast-beef, entre folhas tenras de alface, ladeadas por duas lascas de fiambre de uma cor de rosa macia; pão, vinho, dois damascos em calda, num pires, e uma grossa talhada de queijo.
A jibóia torcia-se com ânsia, atirando botes como se quisesse abocanhar de uma vez tudo quanto havia. O aroma punha-a em desespero inenarrável. Mas Anselmo como que se comprazia com o suplício da besta íntima, sorvendo voluptuosamente o perfume dos pratos e regalando os olhos com aspecto sedutor das iguarias.
Ó ciência difícil dos temperos! Ó arte sutil da ornamentação dos pratos. Um roast-beef, sem o recamo da alface, é como a mulher sem meias. Que delícia! Quem diria que ele havia de sair do leito para aquele delicado festim: De cubiculo recta in triclinium ire! Assim dizia Anselmo no coração enquanto a boca ia-se-lhe enchendo d'água.
A lua foi a companheira que teve, alegre e sóbria companheira, e a mulher, sentada pacientemente à porta, pôs-se a sussurrar um canto enternecido em que falava de amores, enquanto ele sorvia a colheradas a sopa que era um delicado polme de ervilhas sabiamente temperado, com leve sabor de paio e uns longes suaves de cravo-da-índia, Depois foi a fritada, depois a galinha e só ficaram na bandeja migas de pão, ossos de frango, um caroço de azeitona, dois de damascos, a casca recurva e roxa do queijo e palitos, o mais passou sofregamente ao bojo da jibóia que se enroscou de novo para digerir sossegada.
Só faltava o café, o café e a dama que bem merecia uma página de Arte, uma longa e rendilhada apologia, não dos seus dotes plásticos e de espírito, mas do seu fino paladar, tão nobremente recomendado por aqueles pratos rescendentes. Mas para o cozinheiro, como para o anfitrião, vale mais que todas as palavras, que podem não ser sinceras, a prova irrefutável dos ossos esburgados.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.