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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

A necessidade de vigilância não se fez sentir imediatamente e quinze dias se foram sem a menor quebra de tranqüilidade.

Branca e sua pequena companheira, confiadas no desaparecimento absoluto dos temíveis celerados, começaram a dar, sozinhas, demorados passeios pela estrada e pela campina, sobre cujas ondas de verde-claro adejavam lindas borboletas.

Pela manhã e à tardinha tinham sempre lugar estes passeios, que foram enfim bruscamente interrompidos por um gravíssimo risco e que milagrosamente escaparam as passeantes.

Um dia ao romper d'alva a moça e a menina, depois de deliciosos tragos de café, seguiram vagarosamente e distraídas para S. João do Príncipe.

Aspiravam com prazer as fragrâncias matinais exaladas das moutas de baunilha e da relva delicada, ao passo que caminhavam.

Finalmente, meio fatigadas assentaram-se sobre um tronco carcomido e tombado junto à estrada.

Os primeiros raios do dia rompiam indiscretamente a folhagem, projetando no chão avermelhado inextrincáveis claros e escuros que faziam os ramos.

Esqueciam-se elas das horas e sorriam internamente ouvindo as melodias tremuladas pelas aves.

Tinham-se levantado e por entre os troncos das seringueiras acompanharam os movimentos de um enorme jacaré, vendo-o mergulhar ao longe, no meio do rio.

Nesse instante perceberam, atrás de si, um barulho nos espessos matagais que encobrem as possantes raízes dos gigantes da floresta.

O seu primeiro sentimento foi de curiosidade, mas logo tremeram de terror.

Acabava de saltar para a picada uma figura... Mas que figura!

Um negro horrendo, cujas feições angulosas e agudas emprestaria ao demônio a mais tenebrosa imaginação de pintor.

Empunhava medonho facão áspero de ferrugem e nu da cintura para cima, vestia umas sórdidas calças que, rasgadas pelo uso, entremostravam nervudos joelhos.

— Olé! rugiu prolongadamente a fera, tão cedo por aqui!

Seguiu as palavras de um riso satânico capaz de estremecer de pavor o mais corajoso sertanejo.

Rosalina sentiu o medo invadir-lhe a alma, Branca tremia de terror.

Quiseram gritar, pedir socorro mas o susto o impediu.

As pobres só esperavam a morte, encarando o algoz que lhes sorria cruel.

Nos olhares das vítimas lia-se uma súplica, nos do algoz um escárnio.

O negro como o tigre não quis sacrificar imediatamente a presa quis gozar das suas antecipadas torturas.

A crueldade encontra, não sabemos que hediondo prazer nas angústias do paciente.

O bruto, com o alfanje já erguido, dirigiu-se vagaroso para Branca, e sua pequena companheira. Parou um pouco, contemplou-as com ar de mofa e avançou definitivamente.

O arvoredo copado estremeceu no alto, de indignação talvez, no momento em que o agressor suspendia a arma assassina.

O facão desceu, mas antes de tocar o alvo novo tremor abalou os ramos e uma lâmina, cintilando aos raios matutinos do sol, desprendeu-se das folhas, vindo se encravar no crânio do perverso negro e estirou-o de bruços.

Branca e Rosalina estavam salvas!

Apenas viram cair o negro a moça e a menina, sem pensar na procura do seu salvador, fugiram para casa voando que não correndo.

Já alto estava o sol e um dia esplêndido iluminava as matas do Amazonas.

— Que houve?! exclamou Eustáquio, avistando sua mulher e Rosalina, que corriam para ele, pálidas e exprimindo terror nos semblantes alterados.

— Que tem você, Branca? — E tu Rosalina?

A jovem profundamente impressionada, não pôde responder e caiu em uma cadeira, meio desmaiada, mas a orfãzinha, ao mesmo tempo que acudia as necessidades da sua protetora, abatida pelo susto, narrou circunstanciadamente a Eustáquio o seu perigo e a imprevista salvação.

— Realmente é ameaçador o aspecto que tomam de novo as cousas, disse ele.

"Vejo agora que a tranqüilidade dos nossos últimos tempos foi uma aparência enganadora e um laço que nos armaram que se desvela hoje.

"Venham os miseráveis que não nos encontrarão de braços cruzados!

"Somos perseguidos porém o que é notável é que possuímos um defensor."

— Quem, tão a propósito, estaria colocado nos ramos para vos salvar, a ti e a Branca? E...

— Rosalina, não percebeste cousa alguma nos galhos?

— Não, senhor, nada vi senão reluzir a faca que prostou o malvado, cujo cadáver deve jazer na estrada.

— Houve um salvador intencionado, é certo, acrescentou o ex-subdelegado, mas não consigo adivinhar quem seja o amigo que vela sobre nós.

Ditas estas palavras, Eustáquio calou-se, fixou a vista sobre um ponto do soalho e levou um momento como que inquirindo a memória.

— Que homem, dizia ele, terá interesse em defender-me com sacrifício próprio? Será o padre Jorge? Isto é tolice... um pobre velho.

(continua...)

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