Por Machado de Assis (1858)
Té que se ouviu um singular estrondo
Remoto prolongado. Ninguém soube
A causa disto, mas afirma um cabo
De ordenanças ter alguns minutos
Sôbre a Gávea chover enxofre e cinzas.
CANTO IV
I
Já sobre os tectos da cidade infante
Novembro as asas cálidas abria,
Que mil ásperos ventos intumescem
E outras tantas famosas trovoadas
Clássicas, infalíveis dos bons tempos,
Quando o leito buscando o forte Almada
A sesta foi dormir como costuma.
Cheio ainda dos gabos do Veloso,
Que num longo sermão daquele dia,
Com arte e jeito o nome seu alçara
Muito acima das nítidas estrelas;
Estende-se na cama; e a fantasia,
Naquele bruxulear em que não vela,
Nem dorme ainda a humanidade nossa,
Começa de pintar-lhe um vasto quadro
De grandezas futuras. Vê as águas ,
De Niterói rasgando a nau famosa
Que o levaria às águas da Ulisséia,
Para o bago empunhar do arcebispado.
Nem só isso, que o papa, desejando
De tal sujeito coroar os méritos,
Cede à insinuação da Companhia,
E lhe manda o chapéu cardinalício
Com mais duas fivelas de esmeralda.
II
Já mais dormido que acordado estava,
E na região das lúcidas quimeras
Todo se lhe engolfava o ânimo ardente,
Quando uma voz subitamente o acorda.
Era a terrível Ira, que tomando
A figura do Vasco, seu sobrinho,
Na alcova entrou bradando desta sorte:
“Oh que afronta, meu tio! que desonra! Quem tal dissera?
O tresloucado Mustre,
O ouvidor atreveu-se. . .” Isto dizendo
Numa cadeira cai; salta da cama
Aturdido o prelado e lhe pergunta
Que afronta, que ousadia, que mistério
Anunciar-lhe vem daquele modo.
Então a Ira, revolvendo os olhos,
Com voz surda lhe diz que o fero Mustre
Atrevera-se a abrir uma devassa
Entre os servos da Sua Senhoria.
III
Como a galinha, que travesso infante
De alguns queridos pintos despojara,
Na defesa da prole irada avança,
Tal rugindo de cólera descreve
Em quatro passos a comprida alcova
O grande Almada. Súbito estacando
A vista crava no vazio espaço.
Ali (milagre só da roaz cólera!)
Vê a figura do atrevido Mustre;
E com olhos, com gestos, com palavras
O ameaça de morte e lhe anuncia
Que há de eterna vergonha os ossos dele
Insepulto levar de idade a idade.
“Tão incrível (diz ele), enorme audácia
De vir meter as mãos no que pertence
À minha eminentíssima pessoa
Um castigo há de ter, -exemplo raro,
Que servirá de público escarmento,
E de algum pasmo aos séculos futuros!”
IV
Disse, e tomado de furor estranho
Gesticulando sai; e enquanto a tarde
Pela morena espádua o véu devolve
Com que baixa a montanha e à várzea desce,
Concentrado vagou de sala em sala.
V
Longa a noite lhe foi; áspero catre
Os macios colchões lhe pareciam,
Ao pastor fluminense, que cem vezes
Que cem vezes fechara os tristes olhos,
Sem conseguir dormir a noite inteira.
No cérebro agitado lhe traçava
A mão da Ira mil diversos planos
Contra o fero ouvidor. Ora imagina
Em saco estreito atado na cintura,
Mandar deitá-lo aos peixes; longos anos
Encerrá-lo em medonho , escuro cárcere;
Ou já numa fogueira, concertava
Pelas discretas mãos do Santo Ofício,
Esmero d'arte e punição de hereges,
Como um simples judeu, torrá-lo aos poucos.
VI
Mas, de baldados sonhos fatigado,
O prelado da cama se levanta.
Enfia as cuecas, os pantufos calça,
E manda ali chamar o seu copeiro.
Corre Anselmo trazendo respeitoso
De alvo-grosso mingau ampla tigela
Com que o prelado consolar costuma,
Antes de se voltar para outro lado,
O laborioso estômago, e ao vê-lo
De pé, meio vestido e tão esperto,
Os olhos espantados arregala
E exclama: "Santo Deus! a estas horas!
Que milagre, senhor, ou que promessa
Fez Vossa Senhoria que o obrigue
A tão cedo deixar sua cama?"
- "Anselmo, nem milagre, nem promessa
(Responde o grande e valoroso Almada).
Se eu fiz hoje unia cousa nunca vista,
Se eu precedi o sol nesta cidade,
Causa única foi um grave assunto
Que o sono me tolheu a noite inteira.
Ao cozinheiro vai da minha parte,
Dize-lhe que uni jantar de dez talheres,
Sem olhar a despesas me prepare,
Que hoje quero brindar por certa causa
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.