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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

« Como leitores vêem, havia dous pratos de dicados — um, ao sympathico amphytrião, outro, a ao nosso querido director Snr. Saavedra, que foi objecto das manifestações mais demonstrativas.

« A ornamentação da mesa, bem como a compo sígão do menu, foram feitas gob os conselhos in« do popular João Meirinho, que uma « longa residencia nas capitaes da civilisação torna un artiste n'estes episodios da vida elegante e a boulevardiàre.

Og brindes foram numerosos e eloquentes : o a do snr. Carvalhosa, á litteratura contemporanea, foi um dos improvisos mais brilhantes que temos ouvido e trouxe a todas as memorias a lembran ga do genio do immortal José Estevão. O snr. Roma, recebido entre um enthusiasmo exhuberan te, recitou a sua mimosa elegia, O Adeus d'Jtoira : vimos lagrimas em mnitos olhos. Sarrotini cantou, com a sua maestria habitual, uma deliciosa canção napolitana. O amigo PadilhZo, sempre obsequiador, deu algumas dag melhores imitações, que tan tos applausos lhe grangeiam nos salões do High Life : foram notaveis ag do Oboé, Emilia da8 Neves, Perd" e Paflida de comboio. Cordeiro, o inspirado

galan, recitou com prodigioso talento o monologo « d'Hamlet, do grande bardo da fria Albion, tão « primorosamente traduzido por uma penna real. Houve tambem a leitura de trechos d'uma come dia, escripta por um mancebo d'Oliveira d'Aze meis, o snr. Corvello, se nos não falha a memoria, que conseguiu fazer sorrir com alguns calembourg.

«A maior cordealidade, o espirito mais picante, as anecdotas mais finas, as conversações mais es pirituosas, occuparam a noite. Todos se retiraram bemdizendo o snr. Melchior, que é uma das per sonalidades mais sympathicas da Republica das Letras, por ter proporcionado um tão notavel meio de se provar que Lisboa não deve ter inveja a Paris, pela sumptuosidade dos Hoteis, o talento dos escriptores e as boas maneiras do High-life. « Estas festas elevam o espirito e fazem remontar

«a memoria aos tempos de Garrett e de D. João « d'Azevedo, em que a vida elegante ge unia em proficuo convivio á vida litteraria !

Arthur desceu a rua de S. Roque, até ao Hotel, como uma pedra que rola, praguejando alto de indignação; galgou as escadas, soprando; no quarto, atirou o chapéu contra a parede : sentia por Melchior um odio homicida ; pensava tumultuosamente em vinganças vagas, batendo o soalho com passadas nervosas. Reparou então n'uma carta, que fôra mettida por baixo da porta. Urna explicação do Melchior, talvez ? Propoetas de rectificação ?

Era a conta do jantar. Verificou a somma, tremulo : vinte e duas libras!

Deixou-se cahir n'uma cadeira com o papel aberto na mão, lagrimas de raiva nas palpebras, murmurando :

— Canalhas I

Tinha recebido, ao outro dia, as provas da primeira folha dos Esmaltes e Joias, e, muito emendadas, ia leval-as elle mesmo, preciosamente, á typographia dos Castros — quando, ao chegar á Praga de Camões, no momento em que parava para deixar passar uma carroça, viu, descendo a rua de S. Roque, a senhora do vestido de xadrez !

No deslumbramento que lhe deu a presença da sua pessoa, o seu rosto oval, alumiado de dous grandes olhos negros, a graça da sua cabeça, toda a sua figura pequenina e mimosa, ficou immovel. Uma carruagem a trote quasi o atropellou : refugiou-se, atarantado, ao pé das grades da praça e viu-a seguir para a rua do Correio.

Não reparara n'elle ! Levava pela mão um querruchinho. O seu vestido de fazenda azul tinha

enfeites de sêda d'um azul mais escuro ; ia devagar, apanhando com graça a cauda do vestido. Trazia luvas de peau de suêde clara, e, andando, voltava-se, sorrindo para a creança que palrava, com passinhos muito vivos, as perninhas calçadas de meias encarnadas, toda rosada, gorducha, sã, appetitosa como um fructo, fresca como uma rosa.

Foi-a seguindo. Não ouvia os ruidos da rua ; as fachadas das casas tinham desapparecido : parecialhe que só ella passava nas lages do passeio e que a claridade do dia adquiria um dourado glorioso. Apesar de magnetisado, retardava o passo : receava offendel-a indo muito junto d'ella, como n'uma perseguição, e devorava com o olhar os folhos baixos do seu vestido, uma brancura de rendas da saia, os tacões altos das suas botinas.

Á esquina d'uma travessa, n'um portal, uma pobre pedia, com uma creança no regaço : ella parou, deu-lhe uma esmola e aquella caridade simples commoveu Arthur como a revelação de bondades delicadas, de piedades democraticas ; discretamente, para se associar com ella n'uma generosidade commum, pôz dous tostões na mão descarnada da mulher.



(continua...)

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