Por Eça de Queirós (1875)
- E ousa esta seita falar em liberdade! Eu também sou liberal... Que, francamente o digo, eu não sou fanático... Nem pelo fato dum homem pertencer ao sacerdócio, o julgo um santo, não... Por exemplo, sempre embirrei com o pároco Miguéis... Era uma jibóia! Desculpe-me a senhora, mas era uma jibóia. Disse-lho na cara, porque a lei das rolhas já lá vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente para não haver lei das rolhas... Disse-lho na cara: "Vossa senhoria é uma jibóia!" Mas, enfim, quando um homem veste uma batina deve ser respeitado... E o Comunicado, repito, é uma vergonha para Leiria... E também lhe digo, com esses ateus, esses republicanos, não deve haver consideração!... Eu sou um homem pacífico, aqui a Amparozinho conhece-me bem; pois se eu tivesse de aviar uma receita para um republicano declarado, não tinha dúvida, em lugar de lhe dar uma dessas composições benéficas que são o orgulho da nossa ciência, de lhe mandar uma dose de ácido prússico... Não, não direi que lhe mandasse ácido prússico... mas se estivesse no banco dos jurados, havia de lhe fazer cair em cima todo o peso da lei!
E balançou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lançando um grande gesto em redor, como se esperasse os aplausos dum conselho de distrito ou duma municipalidade em sessão.
Mas na Sé bateram então devagar as onze; e D. Josefa embrulhou- se à pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia de estar farta de esperar.
O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como um mimo que remetia ao seu senhorio):
- Repita ao nosso cônego quais são as minhas opiniões... Que nessa questão do Comunicado e de ataques ao clero, estou de alma e coração com suas senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo vaise a embrulhar.
Quando D. Josefa entrou na igreja, Amélia estava ainda no confessionário. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mãos sobre a face, abismou-se numa devoção à Senhora do Rosário. A igreja ficou numa imobilidade e num silêncio. Depois D. Josefa, voltando-se para o confessionário, espreitou por entre os dedos; Amélia conservava-se imóvel, com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido negro espalhada em redor; e D. Josefa recaiu na sua reza. Uma chuva fina fustigava agora os vidros duma janela, ao lado. Enfim, houve no confessionário um rangido de madeira, um frufru de vestidos nas lajes, - e D. Josefa, voltando-se, viu de pé diante dela Amélia com a face escarlate e o olhar reluzindo muito.
- Está há muito tempo à espera, madrinha?
- Um bocadinho. Estás prontinha, hem?
Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras saíram da Sé. Ainda caía uma chuva fina; mas o Sr. Artur Couceiro, que passava no largo com ofícios para o governo civil, foi levá-las à Rua da Misericórdia debaixo do seu guarda-chuva.
XIII
João Eduardo, à noitinha, ia sair de casa para a Rua da Misericórdia, levando debaixo do braço um rolo de amostras de papel de parede para Amélia escolher, quando à porta encontrou a Ruça que ia puxar a campainha.
- Que é, Ruça?
- As senhoras foram passar a noite fora de casa, e aqui está esta carta que manda a senhora.
João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o coração, e seguia com o olhar pasmado a Ruça, que descia a
rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do candeeiro, defronte, abriu a carta:
"SR. JOÃO EDUARDO.
O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuasão que era V. Sa. uma pessoa de bem e que me poderia fazer feliz,' mas como se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o artigo do Distrito, e caluniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes não me dão garantia de felicidade na vida de casada, deve desde hoje, considerar tudo acabado entre nós, pois não há banhos publicados nem despesas feitas. E eu espero, bem como a mamã, que o senhor seja bastante delicado para não nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe comunico por ordem da mamã, e sou criada de V. Sa. Amélia Caminha'' .
João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a claridade do candeeiro, imóvel como uma pedra, com o seu rolo de papéis pintados debaixo do braço. Maquinalmente, voltou a casa. As mãos tremiam-lhe tanto, que mal podia acender o candeeiro. De pé, junto da mesa, releu a carta. Depois ficou ali, fatigando a vista contra a chama da torcida, com uma sensação arrefecedora de Imobilidade e de Silêncio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse emudecido e parado. Pensou onde teriam elas ido passar a noite. Lembranças de serões felizes na Rua da Misericórdia atravessaram-lhe devagar na memória: Amélia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre o cabelo muito preto e o colar muito branco o seu pescoço tinha uma palidez que a luz amaciava... Então a idéia de que a perdera para sempre varou-lhe o coração com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as mãos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resoluções bruscas relampejavam-lhe um momento no espírito, esvaíam-se. Queria escrever-lhe! Tirá-la por justiça! Ir para o Brasil! Saber quem descobrira que ele era o autor do artigo! - E como isto era o mais praticável àquela hora, correu à redação da Voz do Distrito.
Agostinho, estirado no canapé, com a vela ao pé sobre uma cadeira, saboreava os jornais de Lisboa. A face descomposta de João Eduardo assustou-o.
- Que é?
- É que me perdeste, maroto!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.