Por Eça de Queirós (1900)
- Ora vejam este país! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar para Oliveira com ossapatos de banho da patroa Pires!... Oh Gouveia! quando eu for Deputado precisamos arranjar um bom lugar para o Videirinha, no Governo Civil. Um lugar fácil e com vagares, para ele não esquecer o violão!
Videirinha corou de gosto e de esperança - correndo a despendurar do cabide o chapéu do Fidalgo.
Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para D. Ana - para os seus decotes, para os lânguidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!... Essa D. Ana assim tão honesta, tão perfumada, tão esplendidamente bela, só apresentava, mesmo como esposa, um feio senão - o papá carniceiro. E a voz também - a voz que tanto o arrepiara na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase doce... Depois, meses de convivência habituam às vozes mais desagradáveis - e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, realmente, só o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade nascida toda dum só homem, quem, entre os seus milhares de avós até Adão, não tem algum avô carniceiro? Ele, bom Fidalgo, de uma casa de Reis donde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, num talho ainda afreguesado, ou que apenas se esfumasse, através de espessos séculos, entre os trigésimos avós - lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne, e as nódoas de sangue no braço suado!...
E este pensamento não o abandonou até a Torre - nem ainda depois, à janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos galos. Já mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os seus passos impacientes se embrenhavam para trás. para o escuro passado da sua Casa, por entre a emaranhada História, procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Império Visigodo, onde reinava com um globo de ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades ocultas, povoadas de homens cultos - penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a úmida espessura já cruzara vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surgiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois por tristes ermos, sob tristes silêncios, chegara a uma lagoa enevoada. E à beira da água limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso, peludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No céu cinzento voava o Açor negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenava para Santa Maria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos Impérios e dos Tempos: - "Achei o meu avô carniceiro!"
No Domingo, Gonçalo acordou com uma "esperta idéia!" Não correria a Santa Maria de
Craquede com uma pontualidade sôfrega, às cinco horas (às cinco horas marcadas no PostScriptum da prima Maria) - mostrando o seu alvoroço em encontrar a tão bela e tão rica D. Ana Lucena! Mas às seis horas, quando findasse a romaria das senhoras aos túmulos, apareceria ele indolentemente, como se, recolhendo dum passeio pelas frescas cercanias, se recordasse, parasse nas ruínas para conversar com a prima Maria.
Logo às quatro horas porém se começou a vestir com tantos esmeros, que o Bento, cansado das gravatas que o Sr. Dr. experimentava e arremessava amarfanhadas para o divan, não se conteve:
- Ponha a de sedinha branca, Sr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica melhor! E refresca mais, comeste calor.
Na escolha dum ramo para o casaco ainda requintou, juntando as cores heráldicas dos Ramires, um cravo amarelo com um cravo branco. Ao portão, apenas montara na égua, temeu que as senhoras (não o encontrando no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da Portela. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou num galope impaciente que o branqueou de poeira.
Só retomou um passo indiferente, ao acercar da linha do Caminho de Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam diante da cancela, que se fechara para a lenta passagem dum trem carregado de pipas. Um desses homens, de alforje aos ombros, era o Mendigo - o vistoso Mendigo que passeava por aquelas aldeias a rendosa majestade das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o chapéu de vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.
- Então hoje a ganhar a rica vida por Craquede?...
- Cá me arrasto às vezes para a passagem do comboio de Oliveira, meu Fidalgo. Ospassageiros gostam de me ver de pé no talude, correm sempre às janelas...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.