Por Eça de Queirós (1875)
D. Josefa então quis ver a menina com o sarampo. Mas não passou da porta do quarto, recomendando à pequena, que arregalava uns olhos de febre, muito abafada na roupa, "não se descuidasse das suas oraçõezinhas de manhã e à noite". Aconselhou à Amparo alguns remédios, que eram milagrosos no sarampo; mas se a promessa fora feita com fé, a menina podia considerar-se curada... Ai, todos os dias dava graças a Deus de se não ter casado! Que filhos eram só para dar trabalho e canseiras; e com as quezílias que traziam e o tempo que tomavam, eram até causa duma mulher se descuidar das suas práticas e meter a alma no Inferno.
- Tem razão, D. Josefa, disse a Amparo, é um castigo... E eu com cinco! Às vezes fazem-me tão doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me a chorar só comigo...
Tinham voltado para junto da janela, e gozaram muito, espreitando o senhor administrador do conselho, que, por trás da vidraça da repartição, namorava de binóculo a do Teles alfaiate. - Ai, era um escândalo! Que nunca houvera em Leiria autoridades assim! O secretário-geral era um desaforo com a Novais... Que se podia esperar de homens sem religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josefa, estava predestinada a perecer como Gomorra pelo fogo do Céu! - A Amparo cosia com a cabeça baixa, envergonhada talvez diante daquela indignação piedosa, dos desejos culpados que a roíam de ver o Passeio Público e de ouvir os cantores em S. Carlos.
Mas bem depressa a Sra. D. Josefa começou a falar do escrevente. A Amparo não sabia nada; e a velha teve a satisfação de contar prolixamente, "tintim por tintim", a história do Comunicado, o desgosto na Rua da Misericórdia, e a campanha de Natário para descobrir o liberal. Alargou-se principalmente sobre o caráter de João Eduardo, a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de cristã aniquilar o ateu, deu mesmo a entender que alguns roubos ultimamente cometidos em Leiria, eram "obra de João Eduardo".
A Amparo declarou-se "banzada". O casamento então, com a Ameliazinha...
- Isso pertence á história, declarou com júbilo D. Josefa Dias. Vão pô-lo fora de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em não ir parar ao banco dos réus... Que a mim o deve, e à prudência do mano e do Sr. padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!
- Mas a pequena gostava dele, ao que parece.
D. Josefa indignou-se. Credo, a Amélia era uma rapariga de juízo, de muita virtude! Apenas conheceu os desaforos, foi a primeira a dizer que não, e que não! Ai! detestava-o... - E D. Josefa, baixando a voz em confidência, contou "que era positivo que ele vivia com uma desgraçada para os lados do quartel".
- Disse-o o Sr. padre Natário, afirmou. - E aquilo é homem que da sua boca nunca sai senão a verdade pura... Foi muito delicado comigo, devo-lhe esse favor. Apenas soube veio-me logo dizer a casa, pedir-me conselhos... Enfim, muito atencioso.
Mas o Carlos apareceu de novo. Tinha a botica desembaraçada um momento (que não o tinham deixado respirar toda a manhã!) e vinha fazer companhia às senhoras.
- Então já sabe, Sr. Carlos, exclamou logo D. Josefa, o caso do Comunicado e do João Eduardo? O farmacêutico arregalou os seus olhos redondos. Que relação havia entre um artigo tão indigno, e esse mancebo que lhe parecia honesto?
- Honesto? ganiu a Sra. D. Josefa Dias. Foi ele que o escreveu, Sr. Carlos!
E vendo o Carlos morder o beiço de surpresa, D. Josefa, entusiasmada, repetiu a história da "maroteira".
- Que lhe parece, Sr. Carlos, que lhe parece?
O farmacêutico deu a sua opinião, numa voz vagarosa, sobrecarregada da autoridade dum vasto entendimento:
- Nesse caso digo, e todas as pessoas de bem o dirão comigo, é uma vergonha para Leiria. Eu já tinha observado, quando li o Comunicado: a religião é a base da sociedade, e miná-la é, por assim dizer, querer aluir o edifício... É uma desgraça que haja na cidade desses sectários do materialismo e da república, que, como é sabido, querem destruir tudo o que existe; proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a promiscuidade de cães e cadelas... (Desculpem exprimir-me assim, mas a ciência é a ciência .) Querem ter o direito de entrar em minha casa, levar- me as pratas e o suor do meu rosto; não admitem que haja autoridades, e se os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada hóstia... D. Josefa encolheu-se com um gritinho, muito arrepiada.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.