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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Mentira! - atalhou o Administrador, debruçado sobre a chaminé do candeeiro, para acender ocigarro.

- Mentira! Sei perfeitamente, e por excelente canal... Enfim, sei por minha irmã! Nunca, emLisboa, a D. Ana deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitíssimo séria. Está claro, não faltou por lá maganão que lhe arrastasse a asa lânguida... Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa lei natural. Mas ela, nada! Nem olho de lado! Esposa romana, meu amigo, e dos bons tempos romanos!

Gonçalo, enterrado no canapé, torcia lentamente o bigode, regalado, recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da sala, com um gesto convencido e superior:

- Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensíveis. Belos mármores, mas friosmármores... Não, Gonçalinho, lá para o sentimento, e para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas, magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes mulherões brancos, do gênero Vênus, só para vista, só para museu.

Videirinha arriscou uma dúvida:

- Uma senhora tão bonita como a Sra. D. Ana, e com aquele sangue, assim casada com umvelhote...

- Há mulheres que gostam de velhotes porque elas mesmas têm sentimentos velhotes! declarou o Gouveia, de dedo erguido, com imensa autoridade e imensa filosofia.

Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E na Feitosa? Nunca se rosnara de alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. Júlio...

De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia repeliu a "mentira":

- Nem na Feitosa, nem em Oliveira, nem em Lisboa... De resto, é o que lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de mármore!

Depois, saudando, em submissa admiração:

- Mas, como mármore... Vocês, meninos, não imaginam a beleza daquela mulher decotada!

Gonçalo pasmou:

- E onde a viu você decotada?

- Onde a vi decotada? Em Lisboa, num baile do Paço... Até foi justamente o Lucena que mearranjou o convite para o Paço. Lá me espanejei, de calção... Uma sensaboria. E mesmo uma vergonha, toda aquela turba acavalada por cima dos bufetes, aos berros, a agarrar furiosamente pedaços de peru...

- Mas então, a D. Ana?

- Pois a D. Ana, uma beleza! Vocês não imaginam!... Santo nome de Deus! Que ombros! quebraços! que peito! E a brancura, a perfeição... De endoidecer! Ao princípio, como havia muita gente, e ela estava para um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá a descobriram. E eram correrias, magotes embasbacados... E "quem será?" E "que encanto!" Todo o mundo perdidinho, até o Rei!

E um momento os três homens emudeceram na impressão do formoso corpo evocado, que entre eles surgia, quase despido, inundando com o esplendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim Videirinha acercou a cadeira, em confidência, para fornecer também a sua informação:

- Pois, por mim, o que posso afirmar é que a Sra. D. Ana é uma mulher muito asseada, muito lavada...

E como os outros se espantavam, rindo, de uma certeza tão íntima - Videirinha contou que todas as semanas aparecia um moço da Feitosa, na botica do Pires, a comprar três e quatro garrafas de água-de-colônia portuguesa, da receita do Pires.

- Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos, que na Feitosa regavam as terras com água-decolônia. Depois é que soubemos pela criada... A Sra. D. Ana toma todos os dias um grande banho, que não é só para lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até lê o jornal dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa de água-de-colônia... Já é luxo!

Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de todas aquelas revelações do Administrador, do ajudante da Farmácia, sobre os decotes e as lavagens da linda mulher que o esperava entre os túmulos dos Ramires seculares. Sacudiu o jornal com que se abanava, exclamou:

- Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh Gouveia, você que tem sabido do Dr. Júlio? Ohomem trabalha na eleição?

A criada entrara com a bandeja do chá. E em torno da mesa, trincando as torradas famosas, conversaram sobre a Eleição, sobre os informes dos Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso - e sobre o Dr. Júlio, que Videirinha encontrara nos Bravais pedinchando votos pelas portas, acompanhado por um moço com a máquina fotográfica às costas.

Depois do chá, Gonçalo, cansado e já provido de "revelações", acendeu o charuto para recolher à Torre.

- Você não acompanha, Videirinha?

- Hoje, Sr. Dr., não posso. Parto de madrugada para Oliveira, na diligência.

- Que diabo vai você fazer a Oliveira?

- Por causa duns sapatos de praia e dum fato de banho lá da minha patroa, da D. Josefa Pires...Tenho de os trocar nos Emílios, levar as medidas.

Gonçalo ergueu os braços, desolado:

(continua...)

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