Por Eça de Queirós (1925)
Quando Arthur, offegante, terminou a scena, sd Melchior e Meirinho tiveram brav08 !
Depois d'uma pausa, Arthur começou a lêr o acto do Baile de Mascaras. Bra longo : passava-se no palacio do Duque, n'um logar indeterminado, na Baixa, com terraços sobre um rio desconhecido de ballada. Pelas rubricas, parecia ser uma festa veneziana da Renascença : uma mascara vestida de trovador cantava uma serenata, dous napolitanos dançavam a tarantella, pagens circulavam com taças de vinho de Syracusa, um bobo roubava com destreza a bolsa aos cavalleiros, e no fundo passava um barco, em que flautas e rebecas alternavam com uma voz de mulher, cantando, na noite, versos de Petrarca.
Xavier, experiente do theatro, comprimia o riso, roxo.
Havia dialogos singulares : Marqueza, dizia um dominó, não sente n'esta festa errar um presentimento de morte » A Marqueza respondia, passando, a arrastar brocados : — O amor é um goivo que floresce n'uma caveira !
Doug fidalgos desciam ó geena :
0 FIDALGO
Como ee portou comtigo o destino, no sarau da Princeza ?
0 FIDALGO
Perdi seiR mil cruzados aos dados !
Quando Arthur leu a apostrophe do Duque, aepois d'atirar a luva ao Poeta : « Quem ousar erguer os olhos para a duqueza de S. Romualdo póde encommendar a mortalha ! » — houve um rumor lento, languido de : muito bem ! muito bonito ! de muito effeito ! — Os litteratos estavam tranquillos, o acto era idiota, o Arthur inoffensivo, e gosavam com attitudes recostadas, faces risonhas, a evidencia d'aquella mediocridade. Excellente drama para ser representado n'uma Assembleia de provincia, por curiosos d'uma phylarmonica. Pobre tolo ! E Roma cofiava a barba com deleite.
Algumas scenas do quarto acto na caga do Poe- ta, na vespera do duello, com uma mãe humilde, creatura sacrificada, fatigaram. Sarrotini torcia-se na cadeira, impaciente do silencio, da immobilidade; o alferes bocejava sem pudor; puxavam-se os relogios ás furtadelas ; havia olhares desesperados para o aparador ; Carvalhosa, com os cotovelos nos joelhos, enterrava a cabeça nas mãos ; e Arthur, sentindo o tedio ambiente descer-lhe sobre o cerebro como um panno gelado, apressou-se a dizer :
— Agora vou lêr o duello I
Houve uma respiração alliviada : com a morte do Poeta, chegava do certo o fim !
Arthur proseguiu com uma voz lugubre :
— Um cemiterio. Cruzes, campas, cyprestes. — Vem rompendo a madrugada. Um coveiro afasta-se com a enxada ao hombro, cantando —E elle mesmo cantou uma melodia singularmente triste, tocante :
Nascem goivos a-a-ah t
E rosas nas sepulturas. Morte eterna, morte eterna, Vida que tão pouco duras I
— Bravo ! — gritou Sarrotini.
A melodia impressionara. Arthur explicou que realmente a ouvira a urn coveiro, no cemiterio d'Oliveira. Extasiaram-se : elle repetiu-a. E aquella toada, d'um vago melancolico, punha alli, na sala, sob o gaz, um relance de cemiterio d'aldeia, n'um cahir de tarde triste.
Animado, Arthur começou o monologo do Poeta, que entrava envolvido n'uma capa e pousava sobre uma campa duas espadas. As physionomias recahiram n'uma fadiga molle, havia uma prostração de fome ; o Xavier que soffria do estomago, não se contivera, e, em bicos dc pés, fôra tirar da mesa passas e amendoas, partilhando-as com Saavedra que se mexia na cadeira, desesperado ; o official de lanceiros então foi buscar uma bucha de pão ; o Mei.
rinho desapparecera. O grito do Poeta, ao ser atravessado pelo florete do Duque, espalhou nos rostos uma alegria feroz.
O Poeta expirava; a Duqueza corria, vestida dc branco, d'entre os cypresteg. Era a scena mais trabalhada, que lhe custara um mez de rascunhos, de vígilias. Leu-a, tremulo ; ás ultimas palavras do Poeta, estava pallido d'emoção, e a vela d'estearina, ao lado, fazia parecer a sua faco mais macilenta — como se se lhe espelhasse no rosto a agonia do personagem ;
O POETA
Adeus, anjo ! Deus te pague toda a felicidade que me deste na terra. Tu /08te a gota d'agua no desato, a estrella d'alva na cerração. Se alguma vez, nas festas do teu palacio, entre as valsas, os madrigaes e 08 cortezã08, te vier idéa o poeta gue na campa fria é pasto dos vermes, chora e diz comtigo : ninguem, como ellc, ninguem 8abia amar ! Vejo uma luz É a patria divina! Julia, a tua mão ! Oh, gojjro ! Adeus ! Ah ! (um grito, morre).
A DUQUEZA (cahinao de joelhos)
Oh, bem amado, a minha alma Vac comtigo e este corpo migeravel irá fenecer na gotidão d'um claugtro !
(CAE O PANNO)
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.