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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Nessa noite, com efeito, D.Josefa "não fez nada". Eram os pêsames na Rua da Misericórdia. Estavam embaixo, na saleta, alumiada lugubremente por uma só vela com um abajur verde-escuro. A S. Joaneira e Amélia, de luto, ocupavam tristemente o canapé ao centro; e em redor, nas fileiras de cadeiras apoiadas à parede, as amigas, cobertas de negro pesado, conservavam-se funebremente imóveis, de faces contristadas, num torpor mudo: às vezes duas vozes ciciavam, ou dum canto, na sombra, saía um suspiro: depois o Libaninho, ou Artur Couceiro, ia em bicos de pés espevitar o morrão da vela; a D. Maria da Assunção expectorava o seu catarro com um som choroso: e no silêncio ouviam tamancos bater no lajedo da rua, ou os quartos de hora no relógio da Misericórdia.

A intervalos a Ruça, toda de negro, entrava com o tabuleiro de doces e copos de chazada; levantava-se então o abajur; e as velhas, que já iam cerrando as pálpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo os lenços aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnação.

João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, ao pé da Gansoso surda que dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o olhar de Amélia, que não se movia, com o rosto sobre o peito, as mãos no regaço, torcendo e destorcendo o seu lenço de cambraieta. O Sr. padre Amaro e o Sr. cônego Dias vieram às nove horas: o pároco com passos graves foi dizer à S. Joaneira:

- Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua excelentíssima mana está a esta hora gozando a companhia de Jesus Cristo.

Houve em redor uma murmuração de soluços; e como não restavam cadeiras, os dois eclesiásticos sentaram-se aos dois cantos do canapé, tendo no meio a S. Joaneira e Amélia em lágrimas. Eram assim reconhecidos pessoas de família; a Sra. D. Maria da Assunção notou baixinho a D.

Joaquina Gansoso:

- Ai, até dá gosto vê-los assim todos quatro!

E até às dez horas a noite de pêsames continuou soturna e sonolenta, perturbada apenas pela tosse constante de João Eduardo que estava constipado, e que (na opinião da Sra. D. Josefa Dias que o disse a todos, depois), "tossia só para fazer troça e para achincalhar o respeito aos mortos".

•••

Daí a dois dias, às oito horas da manhã, a Sra. D. Josefa Dias e Amélia entraram na Sé - depois de terem falado no terraço à Amparo, mulher do boticário, que tinha uma criança com sarampo, e, apesar de não ser coisa de cuidado, "viera à cautela fazer uma promessa".

O dia estava enevoado, a igreja tinha luz parda. Amélia, pálida sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dores, deixou-se cair de joelhos, e ficou imóvel, com o rosto sobre o livro de missa. A Sra. D. Josefa Dias, com passos fofos, depois de se ter prostrado diante da capela do Santíssimo e do altar-mor, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro lá passeava, com os ombros vergados, as mãos atrás das costas:

- Então? perguntou logo, erguendo para D. Josefa a sua face muito barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.

- Está ali, disse a velha baixinho, numa expressão de triunfo. Fui eu mesma buscá-la! Ai, faleilhe teso, senhor pároco, não lhas poupei! Agora é consigo!

- Obrigado, obrigado, D. Josefa! disse o padre, apertando-lhe as mãos ambas com força. Deus há-de-lho levar em conta.

Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o lenço, a carteira dos papéis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu à igreja. Amélia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro imóvel contra o pilar branco.

- Pst, fez-lhe D. Josefa.

Ela ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as mãos as pregas da mantilha em roda do pescoço.

- Aqui lha deixo, senhor pároco, disse a velha. Vou à Amparo da botica, e venho depois por ela.

Ora vai filha, vai, Deus te alumie essa alma!

E saiu com mesuras a todos os altares.

O Carlos da botica - que era inquilino do cônego e um pouco ronceiro na renda - desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josefa apareceu à porta, e conduziu-a logo acima, à sala de cortinas de cassa, onde a Amparo costurava à janela.

- Ai, não se prenda, Sr. Carlos, dizia-lhe a velha. Não largue os seus afazeres. Eu deixei a afilhada na Sé, e venho aqui descansar um bocadinho.

- Então, se me dá licença... E como vai o nosso cônego?

- Não tornou a ter a dor. Mas tem sofrido de tonturas.

- Começos de Primavera, disse o Carlos que retomara o seu ar majestoso, de pé no meio da sala, com os dedos nas aberturas do colete. Também eu me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas sangüíneas, sofremos sempre disto que se pode chamar o renascimento da seiva... Há uma abundância de humores no sangue, que, não sendo eliminados pelos canais próprios, vão, por assim dizer, abrir caminho, aqui e além, pelo corpo, sob a forma de furúnculo, espinha, nascida, às vezes, em lugares bem incômodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por assim dizer, dum cortejo... Perdão, sinto o praticante a palrar... Se me dá licença... Respeitos ao nosso cônego. Que use a magnésia de James!

(continua...)

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