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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Sim, homem! Além dos que estão no claustro parece que há outros, mais antigos, debaixo daterra... Eu nunca vi, não me lembro. Também há que anos não entro em Santa Maria de Craquede! Desde pequeno!... Tu não sabes?

O Bento encolheu os ombros.

- E a Rosa não saberá?

O Bento abanou a cabeça, duvidando.

- Também vocês nunca sabem nada! Bem! Amanhã cedo corre a Santa Maria de Craquede e pergunta na Igreja, ao sacristão, se existe esse subterrâneo. Se existir que o mostre no domingo a umas senhoras, à Sra. D. Ana Lucena, e à Sra. D. Maria Mendonça, minha prima Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!

Mas, repassando a carta, reparou num Post-Scriptum em letra mais miudinha, ao canto da folha: - "No domingo, não se esqueça, a visita será entre as cinco e cinco e meia da tarde!"

Gonçalo pensou: - 'Será uma entrevista?" E na Livraria, atirando para uma cadeira o chapéu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterrâneo - e Maria Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como natural motivo de lhe escrever, de lhe anunciar que no domingo, às cinco e meia, a bela D. Ana e os seus duzentos contos o esperavam em Santa Maria de Craquede. Mas então a prima Maria não gracejara, em Oliveira? Gostava dele, realmente, essa D. Ana?... E uma emoção, uma curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo à idéia de que tão formosa mulher o desejava. Ah! mas certamente o desejava para marido, porque se o apetecesse para amante não se socorria dos serviços da D. Maria Mendonça - nem a prima Maria, apesar de tão sabuja com as amigas ricas, os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comédia! E caramba! casar com a D. Ana - não!

E subitamente ansiou por conhecer a vida da D. Ana! Aturara ela tantos anos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na Feitosa, na solidão dos grandes muros da Feitosa porque nunca sobre ela esvoaçara um rumor, em terríolas tão gulosas de rumores malignos. Mas em Lisboa?... Esses "amigos estimabilíssimos" de que se ufanava o pobre Sanches, o D.

João não sei quê, o pomposo Arronches Manrique, o Filipe Lourençal com o seu cornetim?... Algum decerto a atacara - talvez o D. João, por dever tradicional do nome. E ela?... Quem o informaria sobre a história sentimental da D. Ana?

Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do Gouveia, casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Mágicas e empregado na Misericórdia), costumava mandar ao mano Administrador relatórios íntimos sobre todas as pessoas conhecidas de Oliveira, de VilaClara, que se demoravam em Lisboa - e que interessavam o mano ou por Política, ou por mexeriquice. E decerto, pela irmã Cerqueira, o querido Gouveia conhecia miudamente os anais da D. Ana, durante os seus invernos de Lisboa, nas delícias da sua "roda fina".

Nessa noite, porém, o Administrador não aparecera na Assembléia. E Gonçalo, desconsolado, recolhia à Torre - quando no largo do Chafariz o encontrou com o Videirinha, ambos sentados num banco, sob as olaias escuras.

- Chegou lindamente! - exclamou o Gouveia. - Estávamos mesmo a marchar para minha casa, tomar chá. Quer você, também?.. Você costuma gostar das minhas torradinhas.

O Fidalgo aceitou - apesar de cansado. E logo pela Calçadinha, enlaçando o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa, dum amigo, com uma nova estupenda... O quê? - O casamento da D. Ana Lucena.

O Gouveia parou, assombrado, atirando o coco para a nuca:

- Com quem?!

Gonçalo, que inventara a carta - inventou o noivo:

- Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso ou da Pedrosa. Muitas vezeso Sanches Lucena me falou nele... Conviviam muito em Lisboa...

Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:

- Não pode ser!... Que disparate! A D. Ana não ajustava casamento sete semanas depois de lhemorrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no meado de julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar à sepultura!

- Sim, com efeito! - murmurou Gonçalo. E sorria, sob uma doce baforada de vaidade - pensandoque, sete semanas depois de viúva, ela, sem resistir, calcando decência e luto, oferecia a ele uma entrevista nas ruínas de Craquede.

A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitara - porque, depois de subirem à saleta verde do Administrador, o espanto recomeçou. Videirinha esfregava as mãos, divertido:

- Oh Sr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a Sra. D. Ana, depois de apanhar os duzentos contos dovelhote, logo passadas semanas, zás, se engancha com um rapazote novo...

Não, não!... Gonçalo agora, reparando, também considerava despropositada a notícia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda morno...

- Naturalmente entre ela e esse D. João havia namorico, olhadela... Por isso imaginaram. Comefeito, alguém me contou, há tempos, que o tal D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D. João, e que ela...

(continua...)

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