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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Foi o diabo que te atravessou no meu caminho. É a última vez que me empatas, peitica do inferno!...

Luzia, na confusão da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos; mas, vencendo o impulso de cobardia, e avançando, cautelosa, deparouse-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada de terror, agitando, frenética, os braços, presa a voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aquém, arquejava Crapiúna em estos de cólera, tentando galgar as pedras que os separavam.

— Desta vez - grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinária. Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito... Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...

Em convulsão de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com uns acenos epilépticos, as mãos desarticuladas.

— Deixe a rapariga, seu Crapiúna – bradou Luzia, avançando, resoluta e destemida.

O soldado voltou-se como um tigre, ferido pelas costas.

Diante da moça, em postura de firmeza impávida, magnífica de vigor e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lívido, e recuou, como se um prestígio sobrehumano lhe aplacasse os ímpetos incoercíveis de cólera e de vingança.

— Luzia! – murmurou ele, quase súplice – Não lhe quero fazer mal... Sou um desgraçado, um miserável... Pedi-lhe outro dia, pelo amor de Deus, um instantinho de atenção. Não fez caso; não teve dó de mim... Agora vai se decidir a minha sorte...

— Arrede-se; deixe-me passar!... – intimou Luzia, com força, num tom imperativo, breve e seco.

— Escute-me, meu coração... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem como eu.

— Deixe-me passar!... — Passar!?...

Luzia avançou agressiva.

— Pensas – continuou Crapiúna, recuando, transfigurado o rosto por diabólico sorriso – Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraça pouca é bobagem...

E atirou-se de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu, e, atirando-o ao chão, subjugado, comprimiu-lhe o peito com os joelhos.

O séquito parara na Cova da Onça, cerca de cem metros de altura, donde se viam, distintamente, os lutadores.

Crapiúna gemia, espumava de raiva, medonho, sob a pressão inexorável que o esmagava.

— Miserável, miserável! – gritava Luzia, rubra de pudor, de cólera, procurando deter as mãos crispadas do soldado a lhe rasgarem o vestido –

Alexandre!... Raulino!...

A voz vibrante de angústia retumbou nas quebradas do boqueirão, como um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:

— Agüente; tenha mão nesse malvado, que já vou!...

Aproveitando um movimento da rapariga para compor o traje, Crapiúna ergueu-se, e recuou de salto. Arquejava de cansaço, e da boca lhe borbulhava sangrenta espuma. Os olhos, injetados, fulgiam de volúpia brutal, louca, fixando-se desvairados em Luzia, desgrenhada, o seio nu e as pernas esculturais a surgirem pelos rasgões das saias, caídas em farrapos.

Ébrio de luxúria, exasperado pela invocação de Alexandre, o monstro, recobrado o alento, acometeu-a, rugindo.

Luzia conchegou ao peito as vestes dilaceradas, e, com a destra, tentou lhe garrotear o pescoço; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada ao soldado que, em convulsão horrenda, delirante, a ultrajava com uma voracidade comburente de beijos. Súbito, ela lhe cravou as unhas no rosto para afastá-lo e evitar o contacto afrontoso.

Dois gritos medonhos restrugiram na grota. Crapiúna, louco de dor, embebera-lhe no peito a faca, e caía com o rosto mutilado, deforme, encharcado de sangue.

— Mãezinha!... – balbuciou Luzia, abrindo os braços e caindo, de costas, sobre as lajes.

Raulino precipitara-se no despenhadeiro. Agarrando-se aos arbustos encravados nos interstícios dos rochedos, escorregando onde o penhasco se inclinava em rápido declive, saltando com energia indômita por sobre as fendas, pendurando-se nos cipós que entreteciam a floresta, atufando-se nas frondes das árvores, passando de uma a outra com agilidade de símio, ou deslizando pelos troncos nodosos, enleados de orquídeas, chegou ao fundo da gruta.

Lá, em cima, se ouviam os brados dos carregadores e os grandes gemidos dilacerados da mãe angustiada:

— Meu Deus, Mãe Santíssima, valei-a, salvai a minha filhinlia!...

Momentos depois, o sertanejo surgiu do matagal, perto das pedras do riacho, ofegante do esforço da fantástica descida, atassalhada a roupa, escoriados os braços e pernas pelos espinhos, as mãos feridas, ensangüentadas.

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