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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Melchior, por traz da cadeira d'Arthur, revirava olhos imploradores. AB cadeiras enfileiravam-se em semi-oirculo : o tio Antonio, com as mãos nos joelhos muito geparad&, arregalava OB olhos na sua face nedia ; Sarrotini arqueava o busto forte, os braços soberbamente cvuzados sobre o peito ; Car valhoga apalpava a garganta, com olhares desconfiados para a porta, para as janellas ; Roma, com as pernas muito estendidas, os pés cruzados, con• servava a mao sobre a bocca, como para esconder bocejos provaveis ; havia queixos melancolicamente descahidos sobre as gravatas ; os olhares tinham uma resignação molle. E o andando em bicos dc pés, acabava de dispor uma nova densa fileira de garrafas sobre o aparador. Para Arthur, aquelles rostos em linha eram quasi pavo-

rosos.

Tinha ex.plicado, tremulo, que os Amores de Poeta eram a lucta entre o talento e os preconcei tos sociaes.

— Alvaro, um poeta, ama a duqueza de S. Ro mualdo

Padilhão pulou :

— Ora essa ! E então o que ha-de pensar a snr.8 condessa de S. Romualdo, uma senhora respeitabilissima !

Arthur, atarantado, balbuciou :

—É duqueza

— Duqueza ou condessa. um titulo da casa, lum titulo antiquissimo. Sou relação da familia, pes• soas da primeira sociedade . , .

Concordaram, em redor, que era preciso mudar o titulo. Então todos fallaram, n'uma balburdia, que lera a desforra do silencio forçado, lembrando titulos : duqueza de I Duqueza de Pedro-

Negras Qual! Duqueza da Casa-Santa... Emfim decidiu-se que foge simplesmente — a duqueza !

Aquelle interesse pelo titulo animou Arthur. Pro-

seguiu, mais seguro :

—O que lhes vou agora lêr, é quando o Poeta faz, em casa da duqueza, o elogio da poesia • E, emfim, verão . . . É n'uma soirée :

O CONDE S. SALVADOB

Leu os Céus Estrelados marqueza ?

A MARQUEZA D'ALVARENTA (despeitada)

Até acho impertinente gue m'O pergunte, Conde I Uma pessoa do meu nascimento e da minha educação, não toca nem com luvas . . .

O VISCONDE DE FREIXAL (gaguejando)

A ma-arqueza e-em gue-estões d'es-es-trelladog 8ó-ó-ó 0-008 !

Todos riram, Muito bem ! muito bem ! O Meirinho affectava torcer-se. Atiraram-lhe mesmo um chut severo !

— Deixem-me deixem-me saborear dizia suffocado, com as mãog nag ilhargas. — Magnifieo I

Arthur, aquecendo, continuou já com inflexões theatraes :

O DUQUE

A Marqueza tem razão. Platão erctuéa os poetas da sua republica e Platão, a meu vêr, era um homem d'espirito e um estadista. De que servem 08 poetas ?

O POETA (que conversava baixo com a Dugueza, er guendo-se arrebatadamente)

De que servem, gnr. Duque ?

A DUQUEZA (baioo)

.Atvaro, por quem és, não o irrites que nos perdes !

O POETA (sem a escutar)

De que servem ? Semeiam o Ideal !

E o poeta, de certo de pé, com gestos nobres, fazia o elogio da Poesia. Amaldiçoava os Preconcei- tos, as Inscripções, os Fundos Publicos, os Bancos, todo o materialismo economicoa Accusava os fidalgos, seguramente cabisbaixos, de não comprehenderem a alma da Natureza, o que dialogam as aves com as flores e o que diz o vento aos pinheiraes.

De que vos servem os vossos castellos, o vosso

ouro, as vossas librés — perguntava desgrenhado. Que almag tendes consolado Que lagrimag enxugado D. Arthur, agora, levantado nas ondulações da rhetorica, tinha emphases de voz, e o seu olhar, os SOUB gestos, dirigiam-se sobretudo ao poeta Roma, como para ganhar a sympathia do versificador, incensando-o com aquella glorificação da rima.

Mas Roma tinha posto o seu enorme pince-nez e na sua posição estendida, fixava os vidros de reflexog sombrios, na ponta romba dos botins. Quando o Poeta invocava Deus, inclinou-se para o Carvalhosa e murmurou :

— Que besta ! Que burro !

O Carvalhosa, que a cada momento apalpava o enfartamento das glandulas, encolheu 08 hombros com uma resignação sombria ; todavia, secretamente, aquelle estylo ás empolas agadava-lhe como orador ; e a Saavedra tambem, que, bamboleando a perna traçada, affectava uma distracção elevada, preoccupagões politicas. Só o Cordeiro admirava francamente, meditando attitudeg d'actor, em con cordancia com a eloquenoia da prosa. Padilhio melia-se na cadeira, indignado, vendo em cada. phrase insultos aos titulares das suas relações; e pó, o tio Antonio, os braços gordos e ourtog ornza. dos, cerrava os olhos, como se a cadencia dog periodos lhe desse a gomnolencia d'um embalQr soporifico de berço.



(continua...)

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