Por Eça de Queirós (1900)
- Está claro que não é pelos meus lindos olhos! Mas sabem que eu sou homem para falar, paralutar pelos interesses da terra... O Sanches Lucena não passava dum Conselheiro muito rico e muito mudo! Esta gente quer Deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim porque sou uma inteligência.
E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:
- Homem! quem sabe? Você nunca experimentou, Gonçalo Mendes Ramires. Talvez sejarealmente pelos seus lindos olhos!
Num desses passeios, numa abrasada sexta-feira, com o sol ainda alto, Gonçalo atravessava o lugarejo da Veleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao fim dos casebres que se apertam à orla da estrada alveja, muito caiada, num terreiro defronte da Igreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guisado atraem vasto povo nos dias da feira da Veleda. Nessa manhã o Titó, depois duma madrugada às perdizes, em Valverde, aparecera na Torre para almoçar, urrando, de esfomeado. Era sexta-feira - a Rosa preparara uma pescada com tomates, depois um bacalhau assado, formidáveis. E Gonçalo, toda a tarde torturado com sede, mais ressequido pela poeira da estrada, parou avidamente diante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.
- Oh meu Fidalgo!...
- Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, que morro...
O Pintainho, velhote roliço de cabelo amarelo, não tardou com o copo apetitoso e fundo onde boiava, na espumazinha do açúcar, uma rodela de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com inefável delícia - quando da janela térrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como o dos arneiros que animam as bestas a beber nos riachos. Gonçalo deteve o copo, varado. A janela assomara um latagão airoso, de face clara e suíças louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a cabeça levantada, num descarado modo de pimponice e desafio, o fitava atrevidamente. E num lampejo o Fidalgo reconheceu aquele caçador que já uma tarde, no lugar de Nacejas, ao pé da Fábrica de vidros, o mirara com arrogância, lhe raspara a espingarda pela perna, e ainda depois, parado sob a varanda duma rapariga de jaqué azul, lhe acenara chasqueando enquanto ele descia a ladeira... Era esse! Como se não percebesse o ultraje Gonçalo bebeu apressadamente a sangria, atirou uma placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina égua. Mas então da janela rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o colheu pelas costas como o estalo duma vergasta. Gonçalo soltou a galope. E adiante, sopeando a égua no refúgio duma azinhaga, pensava, ainda trêmulo: - "Quem será o desavergonhado?... E que lhe fiz, eu, Santo Deus? que lhe fiz, eu?..." Ao mesmo tempo todo o seu ser se desesperava contra aquele desgraçado medo, encolhimento da carne, arrepio da pele, que sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surgindo duma sombra, o estonteava, o impelia furiosamente a abalar, a escapar! Porque à sua alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o traiçoeiro corpo, que num arrepio, num espanto, fugia, se safava, arrastando a alma - enquanto dentro a alma bravejava!
Entrou na Torre, mortificado, invejando a afoiteza dos seus moços da quinta, remoendo um rancor soturno contra aquele bruto de suíças louras, que certamente denunciaria ao Cavaleiro e enterraria numa enxovia! - Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos, aparecendo com uma carta que "trouxera um moço da Feitosa..." - Da Feitosa?
- Sim senhor, da quinta do Sr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que vinha de mandado dassenhoras...
- Das senhoras!... Que senhoras?
Sem tarja de luto, a carta não era da bela D. Ana... Mas era de D. Maria Mendonça, que assinava - "prima muito amiga, Maria Severim". Num relance a leu, colhido logo por esta surpresa nova, distraído da venda do Pintainho e da afronta: - "Meu querido Primo. Estou há três dias aqui com a minha amiga Anica, e como passou o mês inteiro do nojo e ela já pode sair (e até precisa porque tem andado fraca) eu aproveito a ocasião para percorrer estes arredores que dizem tão bonitos, e pouco conheço. Tencionamos no domingo visitar Santa Maria de Craquede, onde estão os túmulos dos antigos tios Ramires. Que impressão me vai fazer!... Mas, ao que parece, além dos túmulos do claustro, há outros, ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Franceses, e que ficam num subterrâneo, onde se não pode entrar sem licença e sem que tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê as suas ordens para que no domingo possamos descer ao subterrâneo, que todos afiançam muito interessante, porque ainda lá restam ossos e armas. Se na Torre houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas não se pode visitar um solteirão tão perigoso. Case depressa!... De Oliveira boas notícias. Creia-me sempre, etc."
Gonçalo encarou o Bento - que esperava, interessado com aquele assombro do Sr. Doutor:
- Tu sabes se em Santa Maria de Craquede há outros túmulos, num subterrâneo?
O assombro então saltou para o Bento:
- Num subterrâneo?... Túmulos?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.