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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Depois de duas horas de marcha, interrompida a espaços, para descanso dos carregadores, tornou-se o solo mais acidentado em sucessivas colinas e contrafortes tortuosos, dilatados, como raízes colossais pelo sertão, partido em vales profundos, refrescados pelas filtrações da serrania, sombreados por vegetação da folhagem pardacenta, retorcido e crestada. Mais longe, uma descida íngreme, sobre estratificações da piçarra cortante, os levou ao sopé da montanha, onde começava a ladeira, e apareciam as primeiras árvores, os oitizeiros frondosos, cedros, pausd'arco e angicos em floração estiolada, contornando o riacho da Mata-fresca, do qual restava intermitente fio d'água a deslizar sobre lages, e gotejando de pedra em pedra, como vagarosa lágrima. O séquito parou ao abrigo de grandes rochedos, rolados e amontoados em confusão, por esforço titânico. Forte aragem rumorejava encanada pelo boqueirão, com um ruído de mar longínquo.

— Estamos quase em casa! – exclamou Raulino. – Mas o rabo é o mais difícil de esfolar. Ainda temos um pedaço de ladeira de suar topete. Se pudéssemos ir pelo atalho, encurtaríamos metade do caminho, mas a rede não pode passar na vereda cheia de voltas, troncos e barrancos que é mesmo uma escada de demônios.

— Não há dúvida, seu Raulino – observou um dos rapazes, limpando, com o dedo, o suor que lhe perolava a fronte. – Nem que fosse carga mais pesada; nós somos cabras de talento; vamos bater lá num fôlego, quanto mais a tia Zefinha que é leviana como uma pena.

— Vocês são mas é uns prosas – tornou o sertanejo, ironicamente. – Vejam como estão melados! Com qualquer forcinha ficam botando a alma pela boca. Vamos ver se chegamos à Cova da Onça sem arriar. Um trago da branca está esperando a gente lá em riba. Vosmecê, sra Luzia, que é ligeira, vá pelo atalho que é melhor. Quando chegar no primeiro cotovelo da ladeira, quebre a mão esquerda por uma vereda trilhada, que desce de cabeça abaixo; chega no fundo da grota; passa entre dois muros de pedra; atravessa o riacho e sobe por dentro de um bananal. Chegando na lombada do oiteiro, avista logo a casinha no meio de laranjeiras.

— Você já esteve aqui, seu Raulino? – inquiriu Luzia.

— Ora, ora, ora! Eu conheço o oco do mundo. Oh! Aqui vai a Teresinha. Veja o rasto dela, pequenino, delgado no meio que não toca no chão. Se apertar o passo ainda a pega, porque ela vai cansada. O rasto miúdo e encalcado mostra que vai devagar... Eu rastejo, como se lesse no chão, até por cima da pedra, folharal e até dentro d'água...

E, voltando-se para os carregadores:

— Vambora! Pega de jeito; acerta o passo, cabroeira mofina!... Vamo, vamo, que é meio-dia... Agüenta o balanço! Aonde vocês botam o pirão que comem? Até daqui a um tiquinho, sra Luzia...

E seguiram, em festiva algazarra, estimulando-se com gritos, graçolas que repercutiam, com fragor, nas quebradas do boqueirão. Raulino os tangia com ordens de comando, emitidas no tom gutural dos vaqueiros, voz retumbante, que ele pretendia fosse ouvida a léguas.

Luzia foi subindo após eles, sem esforço, lentamente, até à primeira volta da ladeira, daí em diante cavada na aresta das rochas, talhadas, a prumo, sobre o grotão profundo. Desse sítio agreste, descortinou o panorama do sertão, cinzento de mormaço, terminando no recorte azulado das serranias, ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas de catedral gótica, os picos, que eriçam as crateras extintas dos olhos-d’água do Pajé. Uma facha verde-escuro, serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminável renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque; depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade em agrupamento informe, apenas esboçado, as casas das fazendas abandonadas, ponteando, aqui e ali, a planície devastada e quieta, como um imenso pântano.

Enternecida na contemplação daquele espetáculo extraordinário, na sua tristeza de paisagem morta, o sertão devastado como a terra combusta do Profeta,

ouvia o festivo alarido dos silvos das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a descascarem, numa exuberância magnífica de seiva.

Desse enlevo, arrancou-a o brado longínquo de Raulino, gritando aos carregadores da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre, do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximação dos entes queridos.

Obedecendo à indicação do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das margens para não escorregar, colhendo flores silvestres, parando, a revezes, para desembaraçar as vestes dos espinhos que a detinham, chegou à garganta, que Raulino designara por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas, o riacho, quando Deus dava ao Ceará chuvas benfazejas e fecundantes. Erguendo a saia, ela fruiu a delícia, havia muito não gozada, de imergir n'água sussurrante, os pés pequeninos, as pernas roliças e musculosas, adornadas de aveludada pelúcia negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljôfares cristalinos nas palmas côncavas das mãos, e banhou o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.

Interrompeu-a pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu, rugiu:

(continua...)

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