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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Meu tio Antonio de Moura, chefe da opposição em Beja, muito conhecido . . .

Desembaraçava-o com carinho do chale-manta, abraçava-o ; e repetia arregalando os olhos para os lados :

— Muita influencia no Districto... muita influencia !

Mas vendo entrar um official de lanceiros, de peito enchumaçado e bigodes ferozes, exclamou :

— Viva o exercito ! Estamos todos ! Está toda a bella rapaziada !

No meio do grupo dos litteratos, o tio Antonio, muito á vontade, com um rizinho fino, explicava as condições em qu.e queria um escriptor : destemido, com palavreado, e sem escr'lpulos, p'ra dar p'ra baixo. E contava com prolixidade as suas queixas do Governador Civil, a questão da Junta de Parochia, do muro do cemiterio, do regedor de Reguengos. — Hei-de dar cabo d'elles — dizia, sacudindo a mãozinha gorda.

Em redor chalaceavam, queriam desfrutai-o

Xavier aconselhava-o a que se dirigisse a Alexandre Herculano. Porque não escrevia a Victor Hugo

Victor Hugo era o sujeito que lhe estava a calhar

O tio Antonio ria com bonhomia, uma ponta de velhacaria nos olhinhos luzidios :

— Qual, quer-se um rapazola como os senhores, que ladre, que ladre E que morda ! Eh ! Eh ! Eh !

Arthur ia de grupo em grupo : sentia, afflicto, uma vaga brutalidade ambiente ; batia-lhe o coracão cada vez que via um olhar impaciente voltar-se para o relogio, ou uma bocca abrir-se devagar n'um bocejo de debilidade. Approximou-se um momento de Sarrotini, que, cercado, muito admirado, entre risos, fazia a imitação d'um moscardo perseguido : encolhia-se. como no susto de ser mordido, atirava a mão bruscamente para o agarrar, olhando para o ar, a face attenta ; depois, de repente, dava uma palmada no joelho para o esma oar . mas o moscardo, escavo, punha sobre o grul)0 um zumbido acre, doimente, continuo. Admiravani-no, riam. Padilhão, com a testa franzida n'um vinco de reflexão critica, murmurou :

— D'artista, d'axtista ! —E tirando o relogio, voltou-se para Arthur ; — O Melchior Está-se a fazer tarde, que diabo !

Arthur, fingindo que ia buscar Melchi0T, afastouse, rubro. Receava agora que não fosse possivel fazer a leitura e vinha-lhe a amargura do desespero. Por urna curiosidade sympathiea, approximou-se do sujeito calvo, de fato claro. Estabelecera-se entre elles, por olhares repetidos, uma affinidade : eram os mais obscuros, os mais isolados.

— Muito bonito tempo disse Arthur sor- rindo.

— Lindo — disse o calvo. — E logo mais baixo :

— Diga-me cá, porque se espera ? Ouvi fallar que tinhamos leitura . . . Que estopada, hein ?

Arthur fez-se escarlate. Mas n'esse momento Melchior bateu as palmas : rostos voltaram-se com curiosidade.

— Meus senhores . . . — começou Melchior, junto da mesa, n'uma attitüde grave.

Mas vozes romperam, chalaceando : o Melchior deita falla ! Ora adeus ! Menos eloquencia e mais sopa ! Não seja tolo, seh Melchior !

Melchior, irritado, bateu fortemente com uma faca na mesa, Roma disse alto :

— Respeito ao grande orador I Todos riram.

— Meus senhores, — recomeçou Melchior — aqui o meu amigo Arthur Corvello, vae-nos lêr o seu drama, isto é, duas ou tres scenas do seu drama !

Houve um silencio concavo, hostil. Meirinho que fallava baixo com G guarda-livros, ergueu a face para soltar um isolado : muito bem ! apoiado !

Tinham arredado dous talheres na mesa, e ao pé d'um castiçal estava o manuscripto aberto. Ar{9

thur sentou-se. Tremia todo. Receava que lhe fal• tasse a voz, que lagrimas nervosas rompessem.

Melchior ia d'um a outro pedindo baixo, por caridade, quo se sentassem, que tivessem paciencia, era um instantinho

— Maldito ! — murmurou Xavier com raiva.

— Canalha I — fez o Roma, dando-lhe um canellão.

Carvalhosa beliscou-o :

— Has-de m'as pagar, ogsassino !

Elle torcia-se, tinha olhares anciosamente supplicantes :

— Oh, filhos, por quem sois ! um momento ! Pelo amor de Deus ! Sejam decentes !

Arthur, livido, gentia a hostilidade, Mas não lêr agora, poderia parecer uma aesfeita . . . Depois contava dominal-og pela eloquencia do drama, Fez um estorço e disse n'ama voz baixa, estrangulada :

— Eu não leio tudo , , .

—Sim — acudiram logo. — Uma ou duas gee• nas, p'ra fazer idéa !



(continua...)

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