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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Ora ditosos olhos, exclamou. Eu entrei há bocadinho, e já cá tenho a primeira missinha. Fui hoje à capela de Nossa Senhora do Rosário... Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude, que me fez hoje, senhor pároco! Sente-se. Aí não, que lhe vem ar da porta... E então a pobre entrevada lá se foi... Conte lá, senhor pároco...

O pároco teve de descrever a agonia da entrevada, a dor da S. Joaneira; como depois de morta a face da velha parecera remoçar; o que as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...

- Aqui para nós, D. Josefa, é um grande alívio para a S. Joaneira... - E de repente, puxando-se para a beira da cadeira, assentando as mãos nos joelhos: - E que me diz à do Sr. João Eduardo? Já sabe?

Foi ele que escreveu o artigo!

A velha exclamou, levando as mãos à cabeça:

- Ai! nem me fale nisso, senhor pároco! Nem me fale nisso, que até tenho estado doente!

- Ah, já sabe?

- E mais que sei, senhor pároco! O Sr. padre Natário, devo-lhe esse favor, esteve aqui ontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma perdida!

- E sabe que é o íntimo do Agostinho, que são bebedeiras na redação até de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a religião...

- Ai, por quem é, senhor pároco, nem me diga, nem mo diga! Que ontem, quando o Sr. padre Natário esteve ai, até tive escrúpulos de ouvir tanto pecado... Que lhe devo esse favor, ao Sr. padre Natário, logo que soube veio-me contar... É de muito delicado... E olhe, senhor pároco, a mim sempre me quis parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o disse, nunca o disse! Que lá isso, esta boquinha nunca se pôs em vidas alheias... Mas tinha cá dentro um palpite. Ele ia à missa, cumpria o jejum; mas eu cá tinha a desconfiança que aquilo era para enganar a S. Joaneira e a pequena. Agora se vê! Ele foi criatura que nunca me caiu em graça! Nunca, senhor pároco! - E de repente, com os olhinhos luzidios duma alegria perversa: - E agora, já se sabe, o casamento desmancha-se?

O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:

- Ora, minha senhora, seria notório que uma rapariga de bons princípios fosse casar com um pedreiro-livre, que não se confessa há seis anos!

- Credo, senhor pároco! antes vê-la morta! É necessário dizer tudo à rapariga.

O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao pé dela:

- Pois foi justamente para isso mesmo que eu a vim procurar, minha senhora. Eu ontem já falei com a pequena... Mas compreende, no meio daquele desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, não pude insistir muito. Enfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos, expus-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. Fiz o que pude, minha senhora, como amigo e como pároco. E como era o meu dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como cristã e como senhora, tinha obrigação de romper com o escrevente.

- E ela?

O padre Amaro fez uma visagem descontente:

- Não disse que sim nem que não. Pôs-se a fazer biquinho, a choramingar. É verdade que estava muito alterada com a morte em casa. Que a rapariga não morre por ele, isso é claro; mas quer casar, tem medo que a mãe morra, que se veja só... Enfim sabe o que são raparigas! Que as minhas palavras fizeramlhe efeito, ficou muito indignada, etc. ... Mas enfim, eu pensei que o melhor era a senhora falar-lhe. A senhora é a amiga da casa, é madrinha, conheceu-a de pequena... Estou certo que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrança... Tudo isto são considerações...

- Ai, fica por minha conta, senhor pároco, exclamou a velha, hei- de-lhas contar!

- A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós, precisa quem a confesse! Ela confessase ao padre Silvério; mas, sem querer dizer mal, o padre Silvério, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita virtude; mas o que se chama jeito, não tem. Para ele a confissão é a desobriga. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta, nem mata, nem deseja a mulher do seu próximo! A confissão assim não lhe aproveita: o que ela precisa é um confessor teso, que lhe diga - para ali! e sem réplica. A rapariga é um espírito fraco; como a maior parte das mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a governe com uma vara de ferro, a quem ela obedeça, a quem conte tudo, a quem tenha medo... É como deve ser um confessor.

- O senhor pároco é que lhe servia...

Amaro sorriu modestamente:

- Não digo que não. Havia de aconselhá-la bem; sou amigo da mãe, acho que ela é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que converso com ela, todos os conselhos que posso, em tudo, dou- lhos... Mas a senhora compreende, há coisas em que se não pode estar a falar na sala, com gente à volta... Só se está à vontade no confessionário. E é o que me falta, são as ocasiões de lhe falar só. Mas enfim eu não posso ir dizer-lhe: "a menina agora há-de confessar-se comigo"! Eu nisso sou muito escrupuloso...

(continua...)

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