Por Eça de Queirós (1900)
- Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o abençoe!
Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda - enquanto o Casco atravessava o pátio vagarosamente, com a cabeça bem erguida, como homem que devera e que pagara.
E em cima, na Livraria, Gonçalo pensava com espanto: "Aí está como neste mundo sentimental se ganham dedicações gratuitamente1 Porque enfim! Quem não impediria que uma criancinha com febre afrontasse de noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a não deitaria, não lhe adoçaria um grog, não lhe entalaria os cobertores para a conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama - corre o pai, tremendo e chorando, a oferecer a sua vida! Ah! como era fácil ser Rei - e ser Rei popular!
E esta certeza mais o animava a obedecer às recomendações do Cavaleiro - a começar imediatamente as suas visitas aos Influentes eleitorais, essas aduladoras visitas que assegurariam à Eleição uma unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a toalha, arredando os pratos, copiou a lista desses Magnates - por um rascunho anotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta; outros menores; e o Gouveia marcara com uma cruz, como o mais poderoso e mais difícil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da imensa freguesia de Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de propriedade e de dinheiro (com todos outrora o papá andara endividado) - mas nunca encontrara o Visconde de Rio-Manso, um velho brasileiro, dono da quinta da Varandinha, onde vivia solitariamente com uma neta de onze anos, essa linda Rosinha que chamavam "O botão de Rosa", a herdeira mais rica de toda a Província. E logo nessa tarde, em Vila-Clara, reclamou ao João Gouveia uma carta de apresentação para o RioManso:
O Administrador hesitou:
- Você não precisa carta... Que diabo! Você é o Fidalgo da Torre! Chega, entra, conversa...Além disso na Eleição passada o Rio-Manso ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco secos. O Rio-Manso é um casmurro... Mas com efeito, Gonçalinho, convém começar essa caça à popularidade!
Nessa noite, na Assembléia, o Fidalgo, encetando a "caça à popularidade", aceitou um convite do Comendador Romão Barros (do maçador, do burlesco Barros) para o bródio faustoso com que ele celebrava, na sua quinta da Roqueira, a festa de S. Romão. E essa semana inteira, depois outra, as gastou assim por Vila-Clara, amimando eleitores - a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do Ramos, de encomendar um saco de café na mercearia do Telo, de oferecer o braço no largo do Chafariz à nojenta mulher do bebedíssimo Marques Rosendo, e de freqüentar, de chapéu para a nuca, o bilhar da rua das Pretas. João Gouveia não aprovava estes excessos - aconselhando antes "boas visitas, com todo o chic, aos influentes sérios". Mas Gonçalo bocejava, adiava, na insuperável preguiça de afrontar a maledicência rabugenta do velho Gramilde ou a solenidade forense do Dr. Alexandrino.
Agosto findava; e por vezes, na Livraria, Gonçalo, coçando desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras de almaço, o Capítulo III da Torre de D. Ramires encalhado... Mas quê! não podia, com aquele calor, com o afã da Eleição, remergulhar nas eras Afonsinas!
Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas freguesias, não se descuidando das recomendações do Cavaleiro - enchendo sempre o bolso de rebuçados de avenca para atirar às crianças. Mas, numa carta ao querido André, já confessara que "a sua popularidade não crescia, não enfunava..."
- "Não! positivamente, velho amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente comos homens, cumprimentar pelo seu nome as velhas às soleiras das portas, gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiazita rota dar cinco tostões à boeirinha para uma saiazita nova... Ora todas estas coisas tão naturais sempre as fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me conquistassem influência sensível... Necessito portanto que essa querida Autoridade me empurre com o seu braço possante e destro..."
Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de Nacejas, e depois, num domingo, cruzando às Ave-Marias na Bica-Santa o Adrião Pinto do lugar da Levada, ambos lavradores considerados e remexedores de eleições - lhes pedira os votos, desprendidamente e rindo. E quase se assombrara da prontidão, do fervor, com que ambos se ofereceram. - "Para o Fidalgo? Pois isso está entendido! Ainda que se votasse contra o Governo, que é pai!" - E em Vila-Clara, com o Gouveia, Gonçalo deduzia destas ofertas tão acaloradas "a inteligência política da gente do campo":
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.