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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Moça – continuou ele, erguendo-se e dirigindo-se a Luzia, que o contemplava, comovida. – A senhora é mulher de bem; possui mãe, tem pai?... Conserve a sua honra; defendas mesmo a preço da própria vida... Há filhos que matam os pais... Pois há piores monstros da natureza – as filhas que os desonram... Os mortos deixam de sofrer; mas, os vivos, infamados de dor e vergonha, ficam com a alma enferma para sempre...

— Teresinha também tem sofrido tanto – observou, a medo, Luzia.

—Não me falem nela, se querem que os acompanhe... Se a ela perdoasse, era capaz de matar-me outra vez - murmurou o velho, cujos olhos azuis fulgiram num relâmpago de cólera.

Clara ouvia de longe, atrás duma porta, esse doloroso colóquio. Não ousou entrar na sala para ajudar Luzia na defesa de Teresinha tanto conhecia as crises terríveis daquela mágoa inextinguível; mas os seus lábios trêmulos, lábios doloridos de mãe amantíssima, nuns estos brandos de ternura, murmuravam, súplices, desconsolados:

— Pobre da minha filhinha!...

Parece que açoitam diante de mim, a minha filha do coração.

CAPÍTULO XXIX

O sol repontava no horizonte, como um rubro e enorme disco. Surgindo de um lago de oiro incandescente, quando o cortejo do êxodo se pôs em marcha, pela estrada da serra.

Luzia percorreu, com enternecimentos de saudade, os recantos da casa vazia, onde ficavam o pilão, o jirau da latada, a trempe de pedra, os tições extintos, enterrados sob tulhas mornas de cinza, tristes vestígios dos habitantes que a abandonavam. Contemplou, com lágrimas comovidas, o lar apagado, o terreiro, em torno, limpo, varrido, as árvores mortas, os mandacarus carcomidos até ao alcance dos dentes dos animais vorazes, a paisagem triste, coisas mudas e mestas, que se lhe afiguravam companheiros de infortúnio, dos quais se despedia para sempre. E partiu, conduzindo, à cabeça, uma pequena trouxa.

Seis possantes rapazes e Raulino iam à frente, revezando-se na condução da tia Zefa, estirada na rede, amarrada a um caibro longo e flexível. A bagagem, duas malas e os cacarecos de serventia doméstica, foi levada na véspera por outros trabalhadores e Alexandre, que se adiantara para preparar a nova morada, o ninho da ventura sonhada. A família de Marcos também partira com ele.

Ao passar a rede pelas últimas casas da Lagoa do Junco, perguntavam as mulheres debruçadas sobre as janelas:

— Vai vivo ou morto?

— Bem viva, graças a Deus, respondia Raulino.

— Deus a conserve. Boa viagem!

Luzia lançou demorado olhar ao morro do curral do Açougue, onde começava de alvejar, de reboco, a penitenciária, enleada na floresta de andaimes, quase pronta para receber a cumeeira. E ocorreu-lhe, como recordação piedosa, a triste sina dos condenados que ali ficavam, por toda a vida, encerrados, como em sepultura de pedra e cal. Dentre eles, surgia o espectro minaz de Crapiúna, cujos gritos terríveis de desespero ecoavam ainda no coração dela, por mais que se esforçasse por varrê-los da memória, e libertar-se da implacável obsessão, que lhe toldava a serenidade do amor vitorioso.

Desviando os olhos do morro sinistro, que fora o seu Calvário de vilipêndio, compensado pela florescência dos instintos sagrados e do afeto redentor de LuziaHomem, ela resfolegou aliviada, como se dentro daquelas paredes maciças, colossais, ficassem encarcerados o passado, as mágoas, os dissabores dos opressivos dias de miséria.

A estrada coleava pelo terreno ondulado, cômoros calvos e vales cortados pelos sulcos dos regatos extintos, e alteando insensivelmente, ao passo que, com a montanha, se aproximavam, cada vez mais nítidos, o arvoredo, as manchas peladas dos roçados estéreis, as cintas de granito, os talhados a pique, em precipícios medonhos, e grotões sombrios, destacados, num esmalte bronzeado de neblina vaporosa.

Madrugadores serranos desciam para a cidade, dirigindo comboios de farinha, de rapadura, o derradeiro produto da lavoura agonizante. Troteando à cadência do ranger das cangalhas, eles saudavam aos viajantes, repetindo a pergunta caridosa: "Vai vivo ou morto?" – quando, tirando o chapéu, se afastavam para darem passagem à rede da tia Zefa.

À margem da estrada, dentre moitas de mofumbos ressequidos e juremas desgrenhadas, uns fios de fumo azulado erguiam-se, em tênues espirais, dos ranchos de retirantes, acordados àquela hora da manhã, e pedindo, plangentes, uma esmolinha pelo amor de Deus.

(continua...)

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