Por Eça de Queirós (1925)
No emtanto, junto do aparador, Meirinho e Yelchior pareciam questionar vivamente. Arthur, inquieto, approximou-se.
— Estão-se a estragar, estão-se a ! —-dizia Meirinho, excitado. E voltando-se thur : — Com o calor, com as luzes, estr É necessario começar já.
Melchior insistia, mas frouxamente : emfim, primeiro a leitura do drama. Senão depois . . .
— Depois, depois ! — exclamou abafadamente o Meirinho — O drama póde eeperar. As ostras é que não podem esperar, amollecem . . .
Arthur ficou aterrado, pa]lido : tanta despeza e não fazer a leitura ! Olhou para o jornalista tão
supp-licantenente, que Melchior compadecido teimou prin±o o drama, as ostras que as leve o
NÃeirinho recuou, olhou-os ambos com rancor. E um grande gesto :
.Bem I. É um perdido ! Eu não me resPonsahiliso por mais COüsa nenhuma !
ia sahir, furioso, quando esbarrou com o Roma. O poeta entrava devagar, com o seu ar de vago desp eito tão singular n'um homem nedio, descalçan&O as luvas pretas. Pareceu não reparar em Arthur• Deu um olhar de lado á mesa, e ageitando um saminho de alecrim que trazia na lapella, approximou-se de Xavier, mxando as calças para cima com o seu gesto torpe.
Ecoo el eggrcgio oratore . — fez Sarrotini com uma voz possante que dominou o rumor.
pra, o Carvalhosa. Vinha abafado n'um cachenez roxo e Ijaxecia descontente. Disse logo a Melchior que tinha vindo por grande favor, pois que uma constipação e precisava eautelas. E palpa V a a garganta, olhando em volta, desconfiado, procnrando Ilma corrente d'ar, uma fresta traiçoeira.
Isto é orgão serio, — disse para Sarrotini _ a differença que para os senhores é questão de 0tas e para nós, d'idéas ,
E depois de soltar a sua phrase, veio para Arthur e stendendo-lhe negligentemente a mão :
— Como vai o amigo
Arthur interessou-ze servilmente pela sua garganta. Não era nada de cuidado, de certo . . .
— Porque se espera ? — perguntou-lhe Carvalhosa, baixo, franzindo o nariz.
Arthur, córando, balbuciou :
— Não sei.
Melchior auroximava-se radiante e batendo uma palmada no hombro d'Arthur :
— Cá o amigo vai-nos lêr o seu drama !
Carvalhosa pareceu interdicto, f.ez :
— Ah !
E foi andando, com olhares para a mesa, para as garrafas, direito ao grupo ruidoso, onde Xavier gesticulava :
— Então — disse Carvalhosa baixo, indignado — temos uma estopada d'um drama ?
Os outros encolheram og hombros com uma resignação sombria. Roma achava aquillo uma partida indecente do Melchior. E era em cinco actos ! O Xavier propunha que se fizesse um abaixo assignado pedindo a sopa. Se se fizesse intervir a policia ?
Chamaram Melchior, cercaram-no, com olhares interpellantes, sacudiram-no. Que escandalo era aquelle de lhes impingir um drama ? Convidar pessoas inoffensivas, desprevenidas . . .
— Oh, rapazes, por quem sois ! — supplicava Melchior. — Então, era uma fatalidade ! O diabo do Arthljr Viera-lhe reeommendado, promettera-lhe. O rapa" Cinha trazido o manuscripto. De resto eram só duas scenas.
Nem duas syllabas ! — disse com furor o Carvalhosa Eu vou-lhe fallar !
Melcnior, afflicto, agarrou-lhe o braço.
_ OIJ, filho, pelo amor de Deus ! Que me comprometteS ! Ih, Jesus, que desgosto! É um instante, coitado do rapaz !
E falava-lhe ao ouvido. Havia rizinhos fun-
gados.
Arthur' Pallido, via de longe aquelle grupo, e sentindO que alli se tramava alguma cousa de funesto para os Amores de Poeta e para a sua propria dignidade' errava pela sala com as faces abrazadas. de repente Melchior desembaraçar-se do Viu vrupo, correr para a porta e abraçar um sujeito grosso e IUbicundo, de chale-manta, o ar hilare e nedio . Era um tio de Melchior.
Proprietario em Beja, exaltado pelas questões da politica local, ardendo n'um odio de provincia pelo dor civil, fundara uni jornal de opposição, governa
A Voz do Districto, e não tendo encontrado em Beja um escriPt0r bastante eloquente para lhe pôr em periodos floridos os insultos á auctoridade — vinha procurar a Lisboa um estylista. Offerecia trinta e seis mil réis por mez e casa d'habitação com hortaliça. Melchiox• convidara-o, para lhe fazer admirar o seu jantar, a sua posição social, relacional-o com litteratos, e, enchei* dc,-o de Champagne, dar-lhe uma disposição propicia ás doze libras que lhe queria pedir.
Foi logo apresental-o ao Xavier, ao Carvalhosa, ao Saavedra.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.