Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo recolhia para o almoço depois dum passeio no pomar percorrendo a Gazeta do Porto, quando avistou no banco de pedra, rente à porta da cozinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu canário, o Casco, o José Casco dos Bravais, que esperava, pensativo e abatido, como chapéu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra da latada, avançava na claridade faiscante do pátio, hesitando, como assustado... E, animado pela vizinhança da Rosa, parou, forçando um sorriso - enquanto o Casco enrolava nas mãos trêmulas a aba dura do chapéu, balbuciava:
- Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...
- Ah! é você, Casco! Homem, não o conheci... E então?
Dobrou o jornal, tranqüilizado - gozando mesmo a submissão daquele valente que tanto o apavorara, erguido e negro como um pinheiro, na solidão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuxava, esticava o pescoço de dentro dos grossos colarinhos bordados - até que atirou toda a alma numa súplica soluçada, retendo as lágrimas que marejavam:
- Ai, meu Fidalgo, perdoe por quem é! Perdoe, que eu nem lhe sei pedir perdão!...
Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e doçura. Ele bem o avisara! Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...
- E olhe, Casco! Quando você me saiu ao pinhal eu levava um revólver na algibeira... Tragosempre um revólver. Desde que uma noite em Coimbra, no Choupal, dois bêbados me assaltaram, ando sempre à cautela com o revólver... Pense você agora que desgraça se tiro o revólver, se desfecho!... Que desgraça, hem?... Felizmente, num relance, pensei que me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para não desfechar o revólver... Enfim tudo passou. E eu não sou homem de rancores, já esqueci. Contanto que você, agora sossegado e no seu juízo, esqueça também.
O Casco amassava as abas do chapéu, com a cabeça derrubada. E sem a erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:
- Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora é que me ralo por aquela doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo pequeno!...
Gonçalo sorriu, encolheu os ombros:
- Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher aparece aí numa noite d'água... E o pequenito doente,coitadito, com febre... Como vai ele, o Manelzinho?
O Casco murmurou do fundo da sua humildade:
- Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãozinho, muito rijinho.
- Ainda bem... Ponha o chapéu. Ponha o chapéu, homem! E adeus!... Você não tem queagradecer, Casco... E olhe! Traga cá um dia o pequeno. Eu gostei do pequeno. É espertinho.
Mas o Casco não se arredava, pregado às lajes. Por fim, num soluço que rebentou:
- É que eu não sei como hei-de dizer, meu Fidalgo... Lá o dia de cadeia, acabou! Tenho gênio,fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando saí, quando soube que a mulher viera de noite à Torre, e que o Fidalgo até a embrulhara numa capa, e que não deixara sair o pequeno...
Estacou, afogado pela emoção. E como Gonçalo, também comovido, lhe batia risonhamente no ombro, "para acabar, não se falar mais nessas bagatelas..." - o Casco rompeu, numa grande voz dolorosa e quebrada:
- Mas é que o Fidalgo não sabe o que é para mim aquele pequeno!... Desde que Deus momandou tem sido uma paixão cá por dentro que até parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da vila não dormi... E Deus me perdoe, não pensei na mulher, nem na pobre da velha, nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se foi a gemer: "ai o meu querido filhinho! ai o meu querido filhinho' Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo ficara com ele na Torre, e o deitara na melhor cama, e mandara recado ao médico... E depois quando soube pelo Sr. Bento que o Fidalgo de noite subia a ver se ele estava bem coberto, e lhe entalava a roupa, coitadinho...
E arrebatadamente, num choro solto, gritando: -"Ai meu Fidalgo! meu Fidalgo!..."- o Casco agarrou as mãos de Gonçalo, que beijava, rebeijava, alagava de grossas lágrimas.
- Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!
Pálido, Gonçalo sacudia aquela gratidão furiosa - até que ambos se encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e trêmulas, o lavrador dos Bravais soluçando, numa confusão. E foi ele por fim que, recalcando um derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéia que o trouxera, que decerto fundamente o trabalhara, e que agora lhe enrijava a face e o gesto numa determinação que nunca vergaria:
- Meu Fidalgo, eu não sei falar, não sei dizer... Mas se de hoje em diante, seja para que for, oFidalgo necessitar da vida dum homem, tem aqui a minha!
Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito simplesmente como um Ramires de outrora recebendo a preitesia dum vassalo:
- Obrigado, José Casco.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.