Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

E abalou, furtando-se a seguro pelos becos, acompanhado dos dois sócios de reveses...

Galga a estrada coleante, entre os declives da Favela.

Atinge o alto da montanha. Pára um momento...

Considera pela última vez o povoado, embaixo...

É invadido de súbita onda de tristeza. Equipara-se “ ao Divino Mestre diante de ,lerusalém."

Mas amaldiçoou...

A LUTA Preliminares

I. Antecedentes .

II. Causas próximas da luta. Uauá.

III. Preparativos da reação. A guerra das caatingas.

IV. Autonomia duvidosa.

CAPÍTULO I

PRELIMINARES

Quando se tornou urgente pacificar o sertão de Canudos, o governo da Bahia estava a braços com outras insurreições. A cidade de Lençóis fora investida por atrevida malta de facínoras, e as suas incursões alastravam-se pelas Lavras Diamantinas; o povoado de Brito Mendes caíra às mãos de outros turbulentos; e em Jequié se cometiam toda a sorte de atentados.

ANTECEDENTES

O mal era antigo.

O trato do território, que recortam as cadeias de Sincorá até às margens do S. Francisco, era, havia muito, dilatado teatro de tropelias às gentes indisciplinadas do sertão.

Opulentada de esplêndidas minas, aquela paragem, malsina-a a própria opulência. Procuram-na há duzentos anos irrequietos aventureiros ferrotoados pelo anelo de espantosas riquezas, e eles, esquadrinhando afanosamente os flancos das suas serranias e as nascentes dos rios, fizeram mais do que amaninhar a terra com a ruinaria das catas e o indumento áspero das grupiaras: legaram à prole erradia e, de contágio, aos rudes vaqueiros que os seguiram, a mesma vida desenvolta e inútil livremente expandida na região fecunda, onde por muitos anos foram moeda corrente o ouro em pó e o diamante bruto.

De sorte que, sem precisarem despertar pela cultura as energias de um solo em que não se fixam e atravessam na faina desnorteada de faiscadores, conservaram na ociosidade turbulenta a índole aventureira dos avós, antigos fazedores de desertos. E como, a pouco e pouco, se foram exaurindo os cascalhos e afundando os veeiros, o banditismo franco impôs-se-lhes como derivativo à vida desmandada.

O jagunço, saqueador de cidades, sucedeu ao garimpeiro, saqueador da terra. O mandão político substituiu o capangueiro decaído.

A transição e antes de tudo um belo caso de reação mesológica.

Caracterizemo-la, de relance.

Vimos como se formaram ali os mamalucos bravos e diligentes, interpostos tão a propósito na quadra colonial, entre o torvelinho das bandeiras e o curso das missões, como elemento conservador formando o cerne da nossa nacionalidade nascente e criando uma situação de equilíbrio entre o desvario das pesquisas mineiras e as utopias românticas do apostolado. Ora, aqueles homens, depois de esboçarem talvez a única feição útil da nossa atividade naqueles tempos, tiveram desde o começo do século 18, quando se desvendaram as lavras do rio de Contas à Jacobina, perigosos agentes que, se Ihes não derrancaram o caráter varonil, o nortearam a lamentáveis destinos. De feito, transmudaram-se em contato com os sertanistas gananciosos. Estes vinham, então, do oriente, espavorindo a ferro e fogo o selvagem e fundando povoados que, ao revés dos já existentes, não tinham o gérmen de uma fazenda de gado, mas as ruínas das malocas. Bateram rudemente a região, estacionando largo tempo ante a barreira de serras que vão de Caetité para o norte; e quando as minas esgotadas lhes demandaram aparelhos para a exploração intensiva, tiveram, logo adiante, entre as matas que vão de Macaúbas e Açuruá, novas paragens opulentas, atraindo-os para o âmago das terras.

Devassaram-nas até nova barreira, o rio S. Francisco. Transpuseram-na. Na frente, indefinido, se lhes antolhou, cavado nos chapadões, aquele maravilhoso vale da rio das Éguas, tão aurífero que o ouvidor de Jacobina, em carta dirigida à rainha Maria II (1794) , afirmava "que as suas minas eram a coisa mais rica de que nunca se descobriu nos domínios de Sua Majestade".

Naquele ponto se abeiravam das lindes de Goiás.

Não deram mais um passo além. Ultimara-se uma empresa deplorável. Pelos campos de criação avermelhavam, nodoando-os, os montões de argila revolvida das catas entorroadas; e da envergadura atlética do vaqueiro surgira, destemeroso, o jagunço. A nossa historia, tão malsinada de indisciplinados heróis, adquiria um de seus mais sombrios atores. Fez-se a metamorfose da situação anterior: de par com a sociedade robusta e tranqüila dos campeiros, uma outra caracterizando-se pelo nomadismo desenvolto, pela combatividade irrequieta, e por uma ociosidade singular sulcada de tropelias.

Imaginemos que dentro do arcabouço titânico do vaqueiro estale, de súbito, a vibratilidade incomparável do bandeirante. Teremos o jagunço.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7273747576...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →