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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado. Careta, Rio, 23-7-1921.

MEDIDAS DE EMERGÊNCIA

Quando leio nos jornais, nas seções competentes, os projetos parlamentares que se batizaram com o nome de emergência, eu me recordo do que aconteceu com certo amigo meu, em certo dia, ou melhor: em certa noite. O meu amigo tinha encontrado um outro que viera de fora, cheio de dinheiro. Eram amigos e amigos de infância. O que chegara, transitoriamente rico, não trepidou em convidar o outro, a jantar lautamente, sem ter antes feito preceder esse jantar de abundantes aperitivos.

Quando julgaram que, de aperitivos, já tinham farmaceuticamente chegado ao quantum satis, foram a um bom restaurante e meteram-se no “grude” a valer, regando tudo com bons vinhos. Acabado o jantar, empavesaram-se de charutos caros, tomaram um automóvel e foram dar a clássica volta da Gávea. Chegados à cidade, meteram-se num chope, porque não se pode imaginar que haja alguém que vá a teatro no Rio de Janeiro.

Nele, estiveram até à uma hora da madrugada. Despediram-se. O meu amigo dirigiu-se para a sua casa, na Aldeia Campista. Já passava da Praça da Bandeira, quando lhe deu não sei que dor no baixo ventre. Quis fazer-se estóico e pensou que a dor não existe. Mas, teve a dolorosa experiência de verificar que essa espécie de dores no baixo ventre existem e são terríveis. Saltou e tratou de ver se havia por aí um terreno baldio e discreto, onde pudesse escovar aquela dor renitente. Em vão. Tudo, quer de um lado, quer do outro, era um sempre fechado de casas. Como havia de ser? Não teve tempo de recordar-se do that is the question. As ceroulas lhe ficaram um tanto mais pesadas e ele reconheceu que a natureza havia resolvido a question com uma bela medida de emergência. Seguiu para casa aligeirado, sem dores, mesmo sem medo de salteadores; e no dia seguinte, após um bom banho, ria-se, interiormente satisfeito, por conhecer tão deliciosa medida de emergência.

Ele me contou isso, mas não posso aconselhar ao Brasil que faça o mesmo, pois um país é um país e não tem dessas dores. Entretanto, vou lembrar algumas que podem ser úteis para as dores que torturam atualmente a nossa pátria, depois do regabofe ou regabofes do rei Alberto :

a) Suprimir Carlos Sampaio;

b) Destruir todas as plantações de café;

c) Confessar-se a última potência do Universo;

d) Alugar uma casa nos subúrbios para o seu presidente e vender todos os seus

palácios;

e) Jogar num bilhete da loteria de Espanha;

f) Acabar com Pires do Rio e Arrojado Lisboa.

Com essas e algumas mais complementares, estou certo de que o Brasil, tal e qual o meu amigo, irá para casa, aligeirado, sem dores e, no dia seguinte, nem mesmo precisará tomar um banho frio, para se sentir aliviado.

Careta, Rio, 30-7-1921.

O CONDE E O VISCONDE; DOIS GENEROSOS

Jamais, desde aqueles memoráveis dias em que, na minha meninice, estudei história, deixei de me lembrar daquela ateniense que votava pelo ostracismo (banimento) de Aristides porque estava cansado de ouvir chamá-lo de justo.

Muito depois de aprovado, ainda ia procurar o meu João Ribeiro, História Antiga (Oriente e Grécia), para lá ler a anedota histórica. Eis como o sábio professor a narra:

“Conta-se que durante a votação popular (para o banimento) um cidadão que não sabia ler nem escrever, pediu ao próprio Aristides, a quem não conhecia, que escrevesse o seu voto. – Mas, Aristides ofendeu-te? – Não, replicou o votante. Mas estou cansado de ouvir chamá-lo de justo.”

Muitas coisas graves, interessantes e pitorescas andei aprendendo; mas, de todas elas, uma das que mais profundamente ficou-me gravada no cérebro foi essa anedota.

Quando vejo por aí toda a gente a dizer que fulano é justo, é sério, é virtuoso, é santo, não fico cansado para bem dizer, mas espero um dia para apea-lo do nicho e, se for ainda capaz de arrependimento, faze-lo ajoelhar-se e penitenciar-se da sua “homenagem à virtude” (vide La Rochefoucauld)299.

Há nesta cidade dois homens conhecidíssimos por muitos motivos, um dos quais não é certamente as grandes fortunas de que são possuidores. Um é o conde da Pátena e o outro é o visconde de Loques. Um, é político brasileiro; o outro, não o é nem português, por economia.

Ambos são tidos como homens de grande coração, generosíssimos.

Antigamente, não entrava ninguém num veículo que não ouvisse, a um canto, dizerem:

– Oh! O Pátena! Aquilo sim é que é homem! Ele olha para a pobreza; ele atende aos pequeninos. Veja você só! Quando ele esteve na construção do túnel daqui para Niterói, quanta gente ele empregou? Era só chegar a ele e pedir.

– Mas, Castrioto, a verba estourou e muita gente ainda está para receber dinheiro.

– Que tem isto? Ele, ao menos empregava... O doutor Pátena não sabe dizer “não”. É um coração!

(continua...)

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