Por Coelho Neto (1890)
Foi isso no quintal de minha casa, perto da cerca. Selamos essa promessa com um beijo e parti. Não lhe podia escrever; ela, porém, lendo os meus versos, revia-se em todos eles porque, até hoje, outra não foi a inspiração de minha alma e, por um amigo fiel, mandava-lhe recados. Aqui, bem sabes que faço pela vida, procuro acumular fortuna — porque eu não desembarco em Maceió senão com muito dinheiro! — mas ainda não consegui ajuntar o pecúlio conveniente. Por enquanto nada tenho.
— Nem casa.
— Nem sapatos, só tenho busto porque, enfim, o meu casaco é quase novo:
mas hei de ter calças finíssimas e o resto e, quando tiver... então sim! Dirigiu-se ao caixeiro: Outra garrafa de Guiness. E continuou: Eu confiava nas palavras fementidas da ingrata e, muita noite, com os olhos no céu, contemplando os astros, pedi às estrelas mensageiras que lhe falassem em meu nome. Mas também não sei para que há estrelas no céu que nem para um recado servem. E confiava quando hoje me veio ter à mão esta carta de minha irmã anunciando-me o próximo casamento da ingrata. — Vai casar?!
— Vai casar e com um inimigo meu. Duas afrontas! Vê como sou desgraçado! Lastima-me!
— E agora?
— Sinto não ter asas. Ah! Se eu pudesse ir a Maceió amanhã, bem cedo. Que escândalo...! Primeiro ia ter com ela, e atirava-lhe em rosto as suas palavras hipócritas, dizia-lhe horrores, humilhava-a, depois então ia ajustar contas com o patife. Dava-lhe tal tunda, Anselmo, tal tunda! Que ele nunca mais se havia de lembrar de pedir moças comprometidas. Mas não tenho asas, nem vintém. Juntou as mãos e, com os olhos altos, suspirou: Mas Deus é grande!
— E que pretendes fazer?
— Vou andar, andar por aí até não poder mais.
— Queres que te acompanhe?
— Não, vou só. Preciso estar só com minha alma. Adeus! És feliz: não amas. Ai!
Levantou-se, acendeu um cigarro e encaminhou-se para a porta. Lá estava o Neiva, num grupo, rugindo, e, mal avistou os rapazes, levantou a bengala:
— Hoje, no Lucinda, a postos!
Eu não vou, disse Fortúnio.
— Por quê? Estás incomodado? — perguntou o Neiva com interesse e meiguice.
— Sou um desgraçado! — e foi-se lentamente rua abaixo, fumando.
— Que tem ele? — perguntou o Neiva a Anselmo.
— Paixão.
— Ah! Também dá para isso? Está arranjado. Logo, porém, mudando de tom: À noite, no Lucinda. Conto contigo.
— É hoje a entrega da jóia?
— Sim, é hoje. E não tenho concorrente. Ah! Todas as noites eu lá estava pedindo a um e a outro. Dei excelência a muito sevandija, mas tenho dois mil e tantos cupons. Não faltes. — Não falto.
Tratava-se da entrega de um adereço, avaliado em oitocentos mil réis, ao freqüentador do teatro que mais cupons de entrada apresentasse. O Neiva, desde a primeira noite, mal jantava, corria para o Lucinda e, postando-se junto à tábua de anúncio, pedia a todos os espectadores que entravam o cupão que o porteiro havia destacado. Aos conhecidos dizia intimamente: "Dá cá o bilhete para a minha coleção." Aos desconhecidos dirigia-se com cortesia senhoril, de chapéu na mão: "Boa noite cavalheiro... Se V. Exa. não faz grande empenho em guardar esse papelucho ceda-mo." "Pois não..." diziam quase todos, muitos porque ignoravam a utilidade do destacado, outros porque não contavam com a prometida jóia. Raros resmungavam, negando. O Neiva, então, empertigava-se e fulminava o avaro com uma sátira.
Dias antes da contagem dos cupons já era certa a vitória do Neiva, "único campeão que se apresentara para disputar o adereço".
O teatro regurgitava quando Anselmo entrou. Estava toda a "boêmia" a postos. De um lado e de outro da platéia, nas alas da feira que ali fora exposta em barracas onde havia a jóia, o brinquedo, a perfumaria, o charuto, a seda, verdadeiros mostradores que anunciavam grandes casas das ruas comerciais do Rio, o povo apertava-se com um zunzum incessante.
Noite quente, de luar. No jardim, a palmeira solitária tinha a folhagem triste prateada e, em torno do seu tronco enfezado, sob as estrelas vivas, ao ar tépido, bebia-se avidamente, com algazarra. As cocottes batiam com os leques nas mesas de ferro, tiniam copos, estouravam rolhas e da platéia apinhada vinha um hausto quente de fornalha.
A uma das mesas o grupo, unido para aquela prova suprema da tenacidade do companheiro, bebia. Mas o pano subiu. O espetáculo correu sem interesse, porque todos esperavam o momento da "jóia".
Foi no intervalo do segundo para o terceiro ato que Furtado Coelho, em cena aberta, anunciou que ia fazer entrega do adereço a quem maior número de cupons apresentasse. Houve um silêncio largo e, de repente, o Neiva saiu dentre os bastidores sobraçando um grosso embrulho. Desatou o barbante que o apertava e, estendendo a mão com solenidade, disse:
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.