Por Domingos Olímpio (1903)
Os maiorais dessa comissão eram homens de saber, Capanema, Gonçalves Dias, Gabaglia, um tal de Freire Alemão, e um doutô médico chamado Lagos e outros. Andavam encoirados como nós vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graça, o retrato da gente, com uma geringonça, que parecia arte do demônio. Apontavam para a gente o óculo de uma caixinha parecida gaita de foles e a cara da gente, o corpo e a vestimenta saíam pintados, escarrados e cuspidos, num vidro esbranquiçado como coalhada. Uma tarde, chegaram, ao pôr-do-sol, à fazenda do velho. Iam no rumo da gruta do Ubajarra. Aboletaram-se no copiar, derrubando o comboio, que era um estandarte de malas, instrumentos, espingardas, na casa dos passageiros. Depois de jantarem um bom trassalho de carne de vaca gorda que parecia um leitão, assada no espeto, algumas lingüiças e um chibarro aferventado com pirão escaldado, armaram as redes nos esteios. Veio a noite, clara como dia, sem uma nuvem no céu, liso como um espelho. Convidava mesmo a gente a dormir na fresca do alpendre. Ali pelas sete horas, disse a eles o velho: "Achava melhor vossas senhorias passarem cá para dentro, porque vem aí um pé d'água de alagar." Ora, os doutores, que sabiam tudo e adivinhavam pelas estrelas as mudanças de tempo, zombaram do aviso; saíram para o terreiro e olharam para o céu, sempre limpo e claro, para verem o que diziam as estrelas. O mais sábio deles, o doutô Capanema, disse que o velho estava sonhando com chuva, mania de sertanejos, que não pensam noutra coisa. Teimaram em ficar no alpendre, embora o velho continuasse a assegurar que se arrependeriam. Quando estavam ferrados no sono, ali pelas onze horas, acordaram debaixo d'água e correram com a rede nas costas, em procura de abrigo dentro de casa, todos admirados uns dos outros, como haviam mangado do velho. De manhã, antes de deixarem o rancho, foram agradecer a hospedagem, e um deles perguntou ao velho: "Como é que vossa senhoria percebeu sinais de chuva, que escaparam a nós outros científicos, envergonhados do quinau de mestre que nos deu?" O velho sorriu, e respondeu: "É muito simples. Tenho ali, no cercado, um burro velho que, quando se está formando chuva, rincha de certo modo: é aquela certeza. A chuva vem sem demora. Foi por isso que avisei a vossa senhoria." O tal de Gonçalves Dias, pequenino, muito ladino e esperto, começou a bulir com os outros, dizendo a eles: "Estamos numa terra, onde burros sabem mais que astrônomos." Foi gargalhada geral. Aí está – concluiu Raulino – de quanto é capaz um burro velho. Ninguém se fie em semelhante raça de bicho...
Dispunha-se a contar outras histórias, quando apareceram Clara e Maria da Graça, que já conheciam Luzia, por informações de Teresinha.
— A Teresa – disse Clara com voz lenta e meiga – quer muito bem à senhora e eu já lhe quero também muito pelas ausências que ela lhe fez.
— Esta é a Luzia-Homem? – perguntou a ingênua Maria da Graça – Pois é bonita moça. Não tem nada de homens... Não é, mamãe?...
— É apelido que lhe puseram, filhinha. Não digas mais semelhante palavra.
— Não faz mal – observou Luzia, visivelmente enleada – É assim que me tratam.
— Perdoe – balbuciou a rapariga – Pensei que era mesmo o seu nome...
E, logo, houve palestra cordial, como se fossem conhecidas de longa data. O projeto da mudança para a Meruoca foi acolhido com entusiástica alegria; mas faltava o essencial: o consentimento de Marcos. Não ousando a mulher e a filha consultá-lo, Raulino e Luzia resolveram procurá-lo para saberem a sua opinião.
Marcos estava na sala da frente, sentado na rede branca, enfeitada a ponto de marca, com vistosas ramagens vermelhas e largas varandas franjadas, arrastando na esteira, onde ele deixara, em desalinho, um livro, As Missões Abreviadas marcado com os óculos de oiro, o lenço de ganga azul e uma caixa de rapé de tartaruga, restos da abastança perdida. Com as largas mãos descarnadas, eriçadas de pêlos, sustendo a cabeça, vergada ao peso das idéias tristes que a povoavam, o velho meditava, baloiçando-se lentamente.
Raulino chegou à porta; Luzia após ele.
— Dá licença, seu capitão Marcos – disse Raulino, cortesmente.
— Quem é? – respondeu o velho tomado de surpresa.
— É de paz.
— Queira entrar...
O velho ergueu-se; examinou-os com os pequenos olhos azuis e profundos; demorou-os sobre Luzia alguns instantes; e, indicando as malas que, com as redes, davam a mobília da sala, principiou, com uma pausa triste, a voz seca, penetrante e cava:
— Abanquem-se. Não ignorem a desarrumação, pois somos com boieiros de passagem.
— Eu e esta moça somos muito camaradas de sua filha, dona Teresinha.
Marcos tornou-se lívido. Raulino continuou, com a desenvoltura de homem despachado e ladino:
— E sabemos que a vossa senhoria não se lhe daria de achar uma arrumação...
— Ainda tenho algumas migalhas – atalhou o velho – para não morrer à fome...
— Sabemos; mas, não seria mau ganhar alguma, ainda que só chegue para o prato.
— Contanto que seja serviço ao alcance de minhas forças... Eu já não posso com trabalhos puxados...
— Não há dúvida. É serviço nas posses de vossa senhoria, nas obras do Governo...
— Onde é isso?
— Na Meruoca...
— Já lá estive, há muitos anos, em compra de farinha.
— Então está feito? Nós ficamos muito agradecidos a vossa senhoria, que nos faz um favorzão. Esta moça é sra Luzia-Homem. Ela, estava com acanhamento de falar.
— Eu não sou mau, dona – murmurou o velho, compungido. – Os desgostos me puseram assim. Era feliz, na minha fazenda, uma situação bem boa, que não me dava cabedais, mas produzia com que viver sem ser pesado a ninguém. Entrou-me, um dia, de repente, a desgraça em casa e fugiu-me para sempre, o sossego. Vi... minha santa mulher envergonhada; ela e a filha caçula a chorarem, escondidas pelos cantos para me não amargurarem. Eu mesmo, tão ralado na vida, parecia oco, sem alma, como se me houvessem roubado o coração. E saía atrás dele, à toa pelo mato, como um desmiolado, em procura da filha ingrata, que o levara. Dias e noites, passei na aflição de sentir-me atolado na lama, estas barbas sujas, evitando os amigos e conhecidos, que me procuravam. Eu tinha vergonha de encarar nos próprios bichos, quanto mais em cristãos, que conheciam a infâmia... Pedi a Deus que me matasse, e Deus não me ouviu... Conservou-me a vida para castigo meu, para que eu ficasse no mundo como um condenado... Depois, o tempo foi roendo o que me restava de melindre. A negra chaga fechou por fora; mas continuou alastrando por dentro... Afinal, a gente se acostuma a tudo... Rezei por alma da ingrata e jurei que, dali em diante, só existiria para mim a filha mais moça, essa inocente que não tinha culpa da crueldade da outra...
A voz do velho rangia-lhe na garganta, em vibrações metálicas; tinha as modulações pungentes do estertor de uma alma estrangulada pelo mais querido dos afetos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.