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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Muita experienciazinha, — murmurou — muita experienciazinha ! — E mostrou o menu. em cartão assetinado, tendo no alto, em letras douradas : Jantar Litterario do dia 15 de Dezembro.

— Real ! — disse Melchior triumphante.

Estava de sobrecasaca, com uma grande came lia branca na lapella. Chamava os creados, contava as garrafas de Champagne, fallava a nos seus can. vidados » : de resto, no hotel, dizia-se «o jantar do Melchior D. Elle propí'io affirmara n'um grupo, no corredor, que havia de mostrar « a esses senhores o que era dar um jantar chic » — e mesmo perguntava-se baixo onde arranjaria Melchior o dinheiro para pagar aquella festa

Arthur no emtanto estava muito nervoso. Ensaiara-se toda a manhã, declamando scenas dos Amores de Poeta ; certas phrases sonoras davamlhe a certeza dos applausos, mas outras vezes tremia, pensando em faces desconhecidas, entreabrindo bocejos fatigados. Preparara alguns periodos litterarios para o brinde e só desejava que toda Oliveira d'Azemeis pudesse estar, de longe, vendo-o no centro da mesa, entre flores e luzes, acclamado pela Capital !

Quando o relogio deu as seis horas, o estomago contrahiu-se-lhe d'emoção.

O primeiro que appareceu foi o folhetinista Xavier : debaixo d'um nariz grosso, o bigode farto, muito horizontal, tinha a espessura d'um rolo de crepe ; de face escavada e as fontes reintrantes, usava lunetas defumadas, com o cordão passado atraz da orelha ; debaixo do fato preto, adivinhava-se um esqueleto quasi sem carne.

Melchior apresentou-lhe logo Arthur :

— Tem um drama, cá o amigo, e vai-nos fazer logo uma leiturazinha — Interrompeu-se, correu a apertar a mão do actor Cordeiro, um moço galante, timido, que, com a cabeça um pouco de lado, torcia constantemente, n'um gesto machinal, um pequeno buço castanho.

Drama historico ? — perguntou Xavier a Arthur.

Moderno

Em que genero

Mas o Padilhão que entrara solemnemente, veio bater no hombro d'Arthur paternalmente ; apre sentava-se de casaca, com a pequena cruz de ca valleiro de Christo.

O Xavier reparotl e fazendo saltar com o dedo a cruzinha :

— Graçazinha regia, hein ?

Padilhão escorregou pelo canto do olho um olhar satisfeito á condecoração, e grave :

—- Foi o Ministro do Reino, á força : que a havia de ter, que a havia de ter ! Vá lá ! Viu-me fazer imitações em casa de D. Joanna Coutinho, gostou... Acceitei !

— E como vai D. Joanna, essa sylphide ? — perguntou Xavier.

Padilhão pareceu chocado d'aquella expressão familiar, fez-se serio, disse :

— Um pouco encatarrhoada ! — girou sobre os calcanhares e afastou-se limpando os beiços a um lenço de monogramma bordado.

— Grande typo ! — disse Xavier a Arthur — Ahi temos o illustre Sarretini.

O cantor entrava com as bandas da sobrecasaca deitadas para traz, o arco do peito saliente no collete decotado, uma vermelhidão prospera na pelle, o olho chammejante. Deu um abraço a Xavier, que lhe sacudiu todo o esqueleto, beijou, com escandalo de todos, a face bonita de Cordeiro, que córou como uma virgem, e com gestos de palco e voz dominante, ia dizendo para os lados : dilecto amico ! Carissimo hijo mio !

Levantou ao ar Meirinho, que gritou, perneando ; riram, fallaram de forças,. Sarrotini foi logo erguer pelo pé uma cadeira e conservou-a no ar, com o braço retesado, a face purpurea. Depois, pediu vermouth e exclamou : Portucallo e Italia siamo fratelli ! Achavam-no um maganão delicioso.

No emtanto, Arthur reparara n 'um individuo barrigudo e calvo, que de mãos atraz das costas e passinhos subtis, ia rodando em volta da mesa, das ostras, das garrafas, com um rosto farejante e desconfiado. Ia perguntar a Melchior quem era — quando Saavedra entrou,

Rodearam-no logo. E elle% com a cabeça erecta, consciente qua importancia, o olhar protector, dizia chalaceando :

— Então, que lhes parece o meu Melchior Que chic que deita ! hein ?

CAPIT&TS

Sarrotini passava-lhe a mão pelo hombro, apossava-se d'elle, dava-lhe nomes carinhosos : gran periodista ! dilecto amico ! Mas Cordeiro arrebatou-lh'o, levou-o para ao pé da janella, cochicharam :

— Você percebe, Saavedra, a rapariguita tem talento, é necessario animal-a. Vai ter um papel na Princeza Jus7ca

Saavedra prometteu, com bondade, a protecção do Secuto.

—É você quem lavra aquillo — perguntou.

Cordeiro negou languidamente.

— Seu sultão disse Saavedra rindo. com movimento desdenhoso dos beiços : — É um zinho d'ossos : eu gosto de carne mais almofadada.



(continua...)

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