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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Imediatamente o Cavaleiro a tranqüilizou. Por que morrer o Reizinho de Espanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males da excelente criança. Mas ele conhecia a realidade - assegurava à Sra. D. Graça que, felizmente para a Espanha, ainda reinaria um Afonso XIII e mesmo um Afonso XIV. Enquanto aos nossos republicanos, esses... Meu Deus! mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas massas profundas, permanecia monárquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas escolas, flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja, que se limpava facilmente com um sabre...

- V. Exa., Sra. D. Graça, que é uma dona de casa perfeita, conhece esta operação que se faz àpanela do caldo... Escumar a panela. É com uma colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda a simplicidade, se clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a El-Rei.

Alteara a cabeça - o seu peitilho resplandecia, mais largo, como couraça bastante rija para defender toda a Monarquia. E, no compenetrado silêncio que se alargou, duas rolhas de champagne estalaram, por trás do biombo, na copa.

Apenas o escudeiro, apressado, enchera as taças - o Fidalgo da Torre com uma gravidade que o sorriso adoçava:

- André, à tua saúde. Não é ao Governador Civil, é ao amigo!

Todos os copos se ergueram num sussurro acariciador. João Gouveia agitou o seu, com especial efusão, gritando: - "Andrezinho, meu velho!" S. Exa. apenas tocou de leve no cálice de Gracinha. Padre Soeiro murmurou as "graças". E Barrolo, atirando o guardanapo:

- Café aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.

Na sala grande, a sala dos veludos vermelhos, o lustre rebrilhava solitariamente; pelas três janelas abertas penetrava a serenidade da noite quente, o recolhido silêncio de Oliveira; e embaixo, no largo, alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca pela cabeça, pasmavam para aquela claridade de festa que jorrava dos Cunhais. O Cavaleiro e Gonçalo acenderam os charutos na varanda, respirando a frescura escassa. E o Cavaleiro, com beatitude:

- Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente em casa de teu cunhado!...

Gonçalo desejou que, no domingo, ele jantasse na Torre. Ainda restavam umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião - a que se daria, com socorro do Gouveia e do Titó, um assalto heróico.

O Cavaleiro prometeu, já deliciado - tomando da pesada bandeja de prata, que derreava o escudeiro, a sua chávena de café, sem açúcar.

- E tu, com efeito, Gonçalo, agora não deves arredar da Torre. O teu papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo da Torre está no meio das suas terras, por onde vai ser eleito para as Cortes. É o teu papel...

O Barrolo, com um riso enlevado, surdiu entre os dois amigos, que enlaçou ternamente pela cinta:

- E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o Cavaleiro e eu!...

Mas D. Maria, do canapé onde se enterrara, reclamou o primo Gonçalo "para negócios". Junto dum console, João Gouveia e Padre Soeiro, remexendo o seu café, concordavam na necessidade dum Governo forte. E Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as músicas sobre a tampa do piano, procurando o Fado dos Ramires. Mendonça tocava com corredio brilho, compusera valsas, um hino ao coronel Trancoso, o herói de Machumba - e mesmo o primeiro ato duma ópera, A Pegureira. E como não descortinavam o Fado com as quadras do Videirinha - foi justamente uma das suas valsas, a Pérola, duma cadência amorosa e cansada lembrando a valsa do Fausto, que ele atacou, sem largar o charuto.

Então André Cavaleiro, que repenetrara vagarosamente na sala, repuxou o colete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um modo meio grave, meio folgazão:

- Se V. Exa. me quer dar a grande honra?...

Oferecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada logo nos largos passos deslizados que o Cavaleiro lançou sobre o tapete. Barrolo e João Gouveia correram a afastar as poltronas, clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ela se perdia, como se fundia, na força máscula do Cavaleiro, que a arrebatava em giros lentos, com a face pendida, respirando os seus cabelos magníficos.

Da borda do canapé, com os finos olhos a fuzilar, D. Maria Mendonça pasmava:

- Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Sr. Governador Civil!...

Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpresa daquela familiaridade, assim renovada pelo Cavaleiro com tão serena confiança, por Gracinha com tanto abandono... Eles torneavam, enlaçados. Dos lábios do Cavaleiro escorregava um sorriso, um murmúrio. Gracinha arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava nas calças do Cavaleiro. E Barrolo, em êxtase, quando eles o roçavam, atirava palmas carinhosas, bradava:

- Bravo! Bravo! Lindamente... Bravíssimo!

VII

(continua...)

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