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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

"Enquanto isto dizia, a capela e o coro enchiam-se de gente e ainda não acabara eu de falar e já eles a uma voz clamavam:

Nós queremos acompanhar o nosso Conselheiro !''

Era a desordem iminente. Sobresteve-a, porém, a placidez admirável, a mansuetude — por que não dizer cristã ? — de Antônio Conselheiro. Que o próprio missionário fale:

"Este os fez calar, e voltando-se para mim disse:

— É para minha guarda que tenho comigo estes homens armados, porque V.

V.Rev.ma há de saber que a polícia atacou-me e quis matar-me no lugar chamado Maceté, onde houve mortes de um e outro lado. No tempo da monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o governo, hoje não, porque não reconheço a República."

Esta explicação, de forma respeitosa e clara, não satisfez o capuchinho, que tinha a coragem de um crente mas não o tato finíssimo de um apóstolo. Contraveio, parafraseando a Prima-Petri:

— Senhor, se é católico, deve considerar que a Igreja condena as revoltas e, aceitando todas as formas de governo. ensina que os poderes constituídos regem os povos em nome de Deus."

Era quase, sem variantes, a própria frase de S. Paulo, em pleno reinado de Nero...

E continuou:

"É assim em toda parte: a Franca, que é uma das principais nações da Europa, foi monarquia por muitos séculos, mas há mais de vinte anos é República; e todo o povo, sem exceção dos monarquistas de lá, obedece às autoridades e às leis do governo."

Fr. Monte-Marciano, nesse remoer nulíssimas considerações políticas, insciente da significação real da desordem sertaneja, diz por si mesmo as causas do insucesso. Desdobrou, afinal, inteira, a estatura anômala de propagandista, faltando apenas ter sob as dobras do hábito a escopeta do cura de Santa Cruz:

"Nós, mesmo aqui no Brasil, a principiar do bispo até o último católico, reconhecemos o governo atual; somente vós não vós quereis sujeitar ?

É mau pensar esse, e uma doutrina errada a vossa!'

A frase final vibrou como uma apóstrofe. De dentro da multidão partiu pronta, a réplica arrogante:

"V.Rev.ma é que tem uma falsa doutrina e não o nosso Conselheiro!"

Desta vez ainda o tumulto. prestes a explodir, retraiu-se a um gesto lento do

Conselheiro que. voltando-se para o missionário, disse

" — Eu não desarmo a minha gente, mas também não estorvo a santa missão."

Esta iniciava-se agora sob maus auspícios. Apesar disto correu em paz até ao quarto dia, e concorridíssima: cerca de cinco mil assistentes, entre os quais todos os homens válidos se destacavam :

"... carregando bacamartes, garruchas, espingardas, pistolas e facões, de cartucheiras à cinta e gorro à cabeça, na atitude de quem vai à guerra."

Assistia-a também o Conselheiro, ao lado do altar, atento e impassível como um fiscal severo, "deixando escapar alguma vez gestos de desaprovação que os maiores da grei confirmavam com incisivos protestos."

Estes, contudo, ao que parece, não tinham gravidade alguma. Apenas um ou outro exaltado, violando velho privilégio, se permitia sulcar de apartes a oratória sagrada.

Assim que, praticando o pregador sobre o jejum, como meio de mortificar a matéria e refrear as paixões, pela sobriedade, sem entretanto exigir demoradas angústias, porque "podia-se jejuar muitas vezes comendo carne ao jantar e tomando, pela manhã, uma chávena de café", tolheu-lhe o sermão irreverente e irônica contradita:

— Ora ! isto não é jejum, é comer a fartar !"

No quarto dia da missão, porém, reincidindo o capuchinho no descabido tema político pioraram as coisas. Começou intensa propaganda contra a pregação do padre maçon protestante e republicano" "emissário do governo e que de inteligência com este ia abrir caminho à tropa que viria de surpresa prender o Conselheiro e exterminar todos eles."

Não se temeu aquele da rebelião emergente. Afrontou-se com ela acirrando-a temerariamente. Escolheu como assunto da prédica subsequente o homicídio, e, sem se furtar aos perigos da arrojada tese, falando em corda na casa do enforcado espraiou se em alusões imprudentes que temos por escusado registrar.

A reação foi imediata. Chefiava-a João Abade, cujo apito vibrando e na praça, congregou todos os fiéis. O caso passou em 20 de maio, sétimo da missão. Reunidos arrancaram dali em algazarra estrepitante de vivas ao Bom Jesus e ao Divino Espírito Santo, na direção da casa em que se acolhiam os visitantes, fazendo-lhes sentir que deles não careciam para a salvação eterna.

Estava extinta a missão. Excetuando “55 casamentos de amancebados, 102 batizados e mais de 400 confissões” , o resultado fora nulo, ou antes, negativo.

Maldição sobre a Jerusalém de taipa

O missionário “como outrora os apóstolos às portas das cidades que os repeliam, sacudiu o pó das sandálias" apelando para o veredictum tremendo da

Justiça Divina...

(continua...)

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