Por Coelho Neto (1890)
— Pois estive por um fio. Estava sem vintém; pedi a um amigo que me vendesse algumas telas pelo preço que encontrasse. Mas... que deu isso? Um quadro de um metro, falo agora como o amador, foi vendido por cento e cinqüenta mil réis e as receitas sucediam-se. Já não havia meio de aviá-las quando o meu companheiro lembrou-se de pedir um pequeno crédito ao farmacêutico, tomando a responsabilidade da dívida, caso eu falecesse. O homem é generoso, aceitou. Logo que me restabeleci fui entender-me com ele sobre as condições do pagamento: "Olhe, disse-me, faça-me uma coisinha para a minha sala de jantar e ficamos quites. Agora não vá fazer um quadrinho para crianças, mesmo porque eu sou curto de vista. Faça-me alguma coisa que se veja de longe." E... aí tem.
— Mas isso é uma infâmia! — bramiu Anselmo.
— Uma infâmia? Podia ter sido pior.
— Ah! Mas eu vou escrever um artigo! Arraso o boticário! — exclamou Anselmo tomando o chapéu e a bengala. Arraso o boticário...!
— Pelo amor de Deus! Não faça tal! Eu sou um homem doente!
— Mas é uma infâmia! É uma exploração!
— Que se há de fazer?!
— É verdade! E estamos numa cidade artística, capital de um império!
— É para ver.
— Bem, adeus, Estêvão!
— Adeus! E obrigado. E, indignado, Anselmo desceu as escadas lentamente, receoso de que aquela ruinaria desabasse.
CAPÍTULO XVII
Chegando à rua do Ouvidor encontrou Fortúnio macambúzio, a mascar um charuto, encostado à porta da Maison Rouge.
— Que é isso, homem? Estás fúnebre.
— Estou com a morte na alma; e suspirou profundamente: Ai!
— Mas que tens? Fala...
— Recebi uma carta do Norte... Sou um grande desgraçado! Arrancaram-me a alma! Atirou a ponta do charuto à sarjeta e, com os olhos úmidos, fitando, com desprezo, o resto do trabuco que fumegava: E ainda há quem defenda a indústria nacional... Está um homem com o coração alanceado, compra um charuto baiano para distrair-se e dão-lhe uma espiga daquela ordem. Coitado de mim!
— Mas que dizia a carta? Tens algum enfermo na família?
— Não. Eu te digo, vou contar-te a verdade, mesmo porque preciso desabafar senão estouro, estouro, palavra de honra. Estou até aqui! — e pôs um dedo na garganta. Tudo irrita-me — a alegria do céu, a alegria da terra. Eu digo como Job: maldito seja o dia... Que suplício! Um homem com o coração dolorido, com a alma despedaçada, obrigado a estar aqui contemplando a alegria dos felizes. Se eu pudesse agarrava toda essa gente e esganava. Ah! Não poder eu fazer com as minhas lágrimas um dilúvio... Ai!
— Mas conta-me a tua tristeza.
— Conto mesmo. Valha-me Deus!
— Tu não estás muito direito, Fortúnio!
— Como não estou direito?!
— Parece-me que o teu mal..
— É todo moral...
— ... e de espírito.
— Ah! Espírito... Pensas que andei pelas baiúcas. Seja tudo pelo amor de Deus! Pois vou contar-te. Vamos. Quero que me ouças religiosamente.
— Como se fosse o teu confessor.
— Não! — exclamou empertigado; não admito confessores, sou ateu. Meu confessor é o meu amigo. Entraram. Uma garrafa de Guiness...
— Vais tomar cerveja preta?
— Vou. Estou de luto: só como feijão e não bebo bebidas brancas. Já amaste, Anselmo?
— Já.
— E sofreste?
— Muito!
— Então podes compreender a minha dor. Ouve: quando saí de Alagoas deixei minha alma com uma linda moça. Ah! Não imaginas! A morena mais bela que Deus pôs no mundo. Antes de partir, chamei-a e disse-lhe: "Fulana, este meio é muito acanhado para as minhas aspirações, vou tentar a vida em outra parte, vou fazer fortuna para poder oferecer-te, com a mão de esposo, os gozos que só a riqueza dá. Somos ambos jovens. Tu, se me tens amor, como dizes, posto que venhas a sofrer saudade, não me esquecerás. Eu serei teu e, pensando em ti, redobrarei de esforços para abreviar o meu retorno. Se me prometes esperar, parto contente e, por aquela estrela clara, que nos olha do céu, juro que, em breve, estarei a teus pés depondo, não só minha alma como o fruto do meu trabalho." E ela, Anselmo, a pérfida, que é muito versada em romances de cavalaria, iludiu-me com palavras doces e com lágrimas falazes: "Por que não te hei de esperar? Não era maior que o meu o amor das damas de outrora que juravam fidelidade aos cavaleiros empenhados na guerra santa. Muitas, porque os seus noivos não tornavam, fiéis ao juramento feito, vestiam a estamenha e encerravam-se nos claustros. Queira o Senhor que eu não seja forçada a seguir esse destino, mas por aquela estrela juro, meu Fortúnio, que, se por mal do nosso amor, não tornares ou por morte ou porque me hajas esquecido, seguirei o caminho triste de um mosteiro e, na minha cela solitária, direi tanto o teu nome que os próprios muros hão de decorá-lo. Se entendes necessária a partida parte, e que o bom Deus te guie, o meu amor irá contigo. E vai! Certo de que, à tua volta, hás de encontrar-me fiel ao que prometo."
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.