Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Menos de meia hora depois, e sem vergonha nenhuma, o Comendador Crispim (eu vou crismando os verdadeiros personagens da história), homem de quarenta anos e casado com senhora ainda moça, bonita e virtuosa, entrou na loja, viu e pagou o corte de vestido de seda, pediu papel e tinta e (mal inspirado poeta) escreveu a seguinte quadra:
Aí tens a mais feia seda,
Que se fará bela em ti,
Pois tudo é belo em teu corpo, Meu anjo, minha Bibi.
E logo colocou o seu verso entre as dobras da seda, fez acondicionar esta em cartão bem arranjado e escreveu sobre o cartão a necessária indicação da rua e do número da casa da Bibi e deu ordem para ser imediatamente levada a encomenda ao seu destino.
Um caixeiro saiu logo com o corte de seda.
O Comendador Crispim que, embora fosse rico, era muito econômico, e freqüentemente queixava-se à esposa das despesas que ela fazia com suas toilettes de modo a vexá-la não pouco, acabava de pagar duzentos mil réis corte de abominável seda coagido por exigência do vício que o escravizava.
Raras vezes a esposa tinha merecido seda de tanto preço ao marido sovina. É verdade que Crispim pagara os duzentos mil réis, lamentando semelhante capricho, mas somas muito mais avultadas já por castigo lhe tinha custado a sua fraqueza.
Não é fraqueza que se diz?...
Mas Crispim ia sair da loja, quando parou à porta, vendo aproximar-se outro comendador (no Brasil os doutores e os comendadores são como as folhas do bosque e as areias do mar), o seu concunhado Teotônio, e ambos ficaram a conversar.
A conversação foi confidencial e versou sobre as impertinências das esposas e sobre os expedientes com que eles as mistificavam.
Os dois comendadores casados com duas senhoras irmãs e honestíssimas eram maridos como há por aí outros que, ainda mesmo sem comenda, são maridos de encomenda.
Crispim, depois de ouvir o que Teotônio lhe dizia da sua Luizinha, que às vezes ciumenta o massava, chorando, mas sempre acabava por acreditar na sua inocência, tomou a palavra por sua vez.
- Olha, Teotônio, a minha Clotilde só me atrapalha, vindo alguns dias encontrar-me na Rua do Ouvidor; hoje, porém, como eu podia correr certo perigo, livrei-me absolutamente da Clotilde. Foi uma dos diabos... estou quase arrependido.
- Que foi?
- De um retalho de seda azul que lhe ficara de um vestido ela arranjou uma gravata para onosso sobrinho Quincas, e esta manhã fingi por isso tal acesso de ciúmes, que a deixei chorosa, desgrenhada..,
- Mas que loucura cruel! Quincas tem apenas dezesseis anos de idade, e desde os cinco emque perdeu seus pais é nosso filho de adoção...
- Chegando à casa eu pedirei perdão à Clotilde; era-me porém necessário livrar-me hoje dela naRua do Ouvidor.
Os dois foram interrompidos pelo caixeiro que tinha ido levar o corte de seda à casa de Mlle Bibi.
Crispim chamou a um lado o pequeno e interrogou-o sobre o desempenho da comissão, mas quase logo levou as mãos à cabeça e recuou exclamando:
- Oh, diabo! que foi fazer este pastrana!...
O desazado caixeiro, que costumava levar às vezes fazendas à casa do comendador, não julgara preciso ler as indicações escritas sobre o cartão e fora entregar o corte de seda à esposa de Crispim.
Mr. Tal e Mr. Qual acudiram à exclamação, e sabendo do qui pro quo, enquanto o primeiro repreendia o caixeiro e jurava ir despedi-lo; o segundo, abusando da perturbação e do desespero de Crispim, disse-lhe:
- Talvez que V. Ex.ª esteja aflito, além do outro motivo, também pela falha do... da encomenda, por ter sido aquele corte de seda o último... mas acabamos de descobrir outro corte, e, se quer que o mande levar... eu sei onde é... não haverá engano... V. Ex.ª quer que o mande levar?... quer?...
- Mande... mande, respondeu sem pensar no que dizia o Comendador Crispim em apuros.
Teotônio ouviu-lhe a história do fatal qui pro quo com a circunstância agravante da quadra, prova evidente da culpa.
Ficaram os dois a olhar um para o outro e junto de um penedo outro penedo.
- Que entrosga! murmurou Crispim finalmente.
- E o meio de sair dela?... disse Teotônio.
Ambos por mais de uma hora ali se deixaram a imaginar explicações impossíveis, até que de súbito parou à porta da loja um carro (da praça) e dele se apeiou Clotilde;
Façam idéia da cara e da compostura de Crispim. Isto se passava em fins de junho, e o pobre homem suava a causar pena.
Clotilde vinha pálida, levemente trêmula, mas senhora.
Ela deu a mão ao marido e ao cunhado e disse com brandura àquele:
- Crispim, fizeste hoje um despesão comigo! o caixeiro me informou do preço da seda;agradeço-te muito o belo presente e a graça dos versos.
O marido respondeu estupidamente, fingindo rir e falando ao ouvido da esposa:
- Ah! causei-te ciúmes? era o que eu queria para vingar-me.
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.