Por Eça de Queirós (1925)
—E depois, ha o prazer do jantar— accrescen ta va Melchior. - Veja você o que nos temos divertido hoje. E então estando a rapaziada ! São anecdotas, chalaças, saudes, uma pandega imperial. Que diabo, são oito ou dez libras !
Arthur encolheu desdenhosamente os hombros. — Pois não lhe parcee, Meirinho ?
Meirinho, esclarecido, concordou com enthusias- mo. Era como se fazia em Paris. Era ch ic, era de gentlemen. Podia-se arranjar um jantarinho delicioso. Era deixar a cousa com elle . . .
Arthur calava-se. Via-se á cabeceira d'uma mesa resplandecente e os litteratos erguendo para elle, n'um toast frenetico, os copos esguios do Champagne !
— Ha mna difficuldado — disse Melchior. —É que aqui o amigo não conhece ninguem e não póde convidar . . . Convidar quem Se elle não conhece ninguem. Ahi é que está !
Meirinho reflectiu, passando a mão pela barba. —É contra a etiqueta murmurou.
Padilhão, consultado, affirmou que era « inteiramente fóra dos habitos
—É o diabo . rosnou Melchior.
E calados, um instante, no embaraço d'aquella difficuldade, iam mastigando o pudim.
De repente Melchior bateu na testa. Uma idéa! O meio era convidar elle ! Elle conhecia toda a rapaziada, convidava, apresentava Arthur, que era o heroe da festa, lia o seu drama, etc. . . . Hein? —B accreseentou baixo :
— Você, já se sabe, paga o jantar ; eu convido, e zás ! Hein ? Catita, não
Meirinho ap•provcu: era o melhor! -E muito juncos, cochicharam, combinando a festa.
— Que diabo estão vocês para ahi a conspirar -— perguntou o sujeito d'oculos, que de certo se aborrecia no topo da mesa e que aquella animação intima, limitada aos da panellinha irritava.
— Nada ! Depois ge verá ! — disse Melchior.
Meirinho, muito interessado, tinha agarrado na manga d'Arthur :
— Uma cousa elegante, — dizia — duas sopas, hors-d'cucres, duas entradas, assado, caça, entremets, um jantarinho p'ra quinze libras . . .
Arthur assustou-se com o preço . . . Mas os applausos! A publicidade! Disse mesmo, para. parecer largo:
— Sim, quinze ou dezaseis libras
Meirinho chegou-se-lhe ao ouvido :
—É necessario convidar o Padilhão, homem da sociedade.
— E o Saavedra, —acc.rescentou Melchior, do outro lado — pessoa d'influencia.
— Com o menu impresso — lembrou Meirinho. — P 'ra ir p'r'os jornaes— acudiu Melchior. esfregou as mãos com grande jubilo.
— O jantarinho de casaca — disse Meirinho.
Melchior que tinha a casaca no prego, escandalisou-se : isso estragava tudo ! Era um jantar de rapazes, sem espalhafato. Nada de poses !
Esboçaram a lista dos convidados. Naturalmente os quatro, « a panellinha Depois, Meirinho lembrou pessoas tão inuteis como o velho D. Frederico. Cada um queria trazer o seu intimo. Emfim, Melchior, conciliador, disse :
— Você é quem dirige o jantar, Meirinho, mas eu sou quem convida. Eu é que sei que rapaziada se precisa. Divisão de trabalho ! Cada um na sua repartição !
— Ha-de ter um jantarinho fallado — affirmou Meirinho.
— E uma sociedade t — disse Melchior. E deu um assobio admirativo.
Deslumbravam Arthur. Iam aperfeiçoando o plano primitivo : além da leitura, poderia haver musica ; seria necessario convidar o Sarrotini ; para fazer um brinde á imprensa, convidava-se o Carvalhosa ! E Arthur via elevar-se pouco a pouco aquella festa, como um grande tropheu que se orna. Melchior acabou por affirAar que a cousa « havia de dar brado no paiz !
E combinaram com o guarda-livros, que o jantar seria na segunda-feira, ás seis horas.
Quando Arthur e Melchior entraram no salão reservado, « para vêr a mesa i), Meirinho, atarefado, dispunha elle mesmo na abertura dos guar danapos raminhos de violetas, com botões de camelia.
A luz abundante do lustre e das serpentinas, os Ti'llpos de copos, as laminas das facas tinham uma faiscação alegre, attrahente, sobre o linho branco da toalha. No pesado aparador de mogno, deante de duas filas escuras de garrafas, estavam dispostos os pratos d'ostras, Havia um cheiro de creme queimado, em que errava subtilmente um fiozinho de limão. As duas velas do piano estavam accesas, porque Sarrotini promettera uma aria.
Melchior, enthusiasmado, poz-se deante de Meirinho, batendo devagarinho as palmas, com a face banhada n'um largo sorriso :
— Bravo ! Bravo ! Bravo !
Meirinho curvou-se profundamente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.