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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Pois estou imensamente lisonjeado. Mas ainda distingo, como o Manuel Duarte. Se, da partedela, essa simpatia toda é para o bom fim, não! Não, santo Deus, não!... Mas se é para o mau fim, então, prima, cumprirei honradamente o meu dever, dentro das minhas forças...

D. Maria escondeu a face no leque, escandalizada. Depois, espreitando, com os agudos olhos a faiscar:

- Oh primo, mas o bom fim é que convinha, porque a coisa é a mesma e são duzentos contos amais!

Gonçalo gritou de admiração:

- Oh! esta prima Maria! Não há em toda a Europa ninguém mais esperto!

Todos curiosamente ansiaram por saber a nova graça da Sra. D. Maria. Mas Gonçalo deteve as curiosidades:

- Não se pode contar. É casamento.

Então José Mendonça recordou a novidade picante que desde a véspera remexia Oliveira:

- Por casamento!... Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?

Barrolo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos o proclamaram "um horror". Aquela perfeita rapariga, de pele tão cor-de-rosa, de cabelo tão cor de ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes, um patriarca carregado de netos... Que desastre!

Pois ao Cavaleiro o casamento não parecia assim "desastrado". O Teixeira de Carredes, além de muito fino, de muito inteligente, era um velho verdejante, quase sem rugas - até bonito com aquele contraste do bigode escuro e da grenha riçada e branca. E na Sra. D.Rosa, com todas as rosas de sua pele e todo o ouro dos seus cabelos, dominava "um não sei quê" de amolentado e de sorvado... Depois pouco esperta. E pouco cuidadosa - sempre mal penteada, sempre mal pregada...

- Enfim, V. Exa. perdoem... Mas quem faz um casamento muito desenxabido é o pobre Teixeirade Carredes.

D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um espanto amável:

- Pois se o Sr. Cavaleiro não admira a Rosinha Alcoforado, não sei então que rapariga admiredentro do seu Distrito...

Ele, logo, com galante rasgo:

- Mas, além de Exa., não admiro ninguém! Realmente eu governo, em Portugal, o Distrito maisdesprovido de beleza...

Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a Melozinho Alboim, com aqueles olhos?... Mas o Cavaleiro não consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pele sem frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e modos, sempre pela carência das belezas e graças que ornavam Gracinha - lançando assim disfarçadamente, aos pés de Gracinha, um rolo de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ela percebera a sutil adulação, os seus olhos alumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a afogueava. Desejou repartir incenso tão acumulado - lembrou timidamente outra beleza de que se orgulhava o Distrito:

- A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso... É linda!

O Cavaleiro triunfou com facilidade:

- Mas tem doze anos, minha senhora! Nem é rosinha, é botãozinho de rosa!...

Quase humildemente, Gracinha recordou a Luísa Moreira, filha dum lojista, muito admirada aos domingos na missa da Sé e no Terreiro da Louça:

- É uma bela rapariga... Sobretudo a figura...

Cavaleiro triunfou ainda, com requebrada segurança:

- Sim, mas os dentes tortos, Sra. D. Graça! Os dentes acavalados! V. Exa. nunca reparou... Oh! uma boca muito desagradável! E, além dos dentes, o irmão, o Evaristo, com aquela cara mais chata que a alma, e a caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não há mulher bonita com irmão tão feio!

Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade que ocupava Oliveira:

- E por Evaristo!... Ele sempre funda o novo jornal republicano, o Rebate?

O Sr. Governador Civil encolheu os ombros com uma ignorância superior e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa de Corvelo e da sua garrafa de Douro, afiançou que o Rebate aparecia em novembro. Até ele conhecia o patriota que esportulava a "massa" . E a campanha do Rebate começava com cinco artigos esmagadores sobre a Tomada da Bastilha.

O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo alastrara em Portugal - até na velhota, na devota Oliveira...

- Quando eu andava em preparatórios existiam simplesmente dois republicanos em Oliveira, ovelho Salema, lente de Retórica, e eu. Agora há partido, há comitê, há dois jornais... E há mesmo o Barão das Marges com a Voz Pública na mão, debaixo da Arcada...

Mendonça não receava a República, gracejava:

- Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos dá tempo de comermos estes belos ovosqueimados.

- Deliciosos - murmurou o Cavaleiro.

- Sim - concordou Gonçalo - ainda temos tempo para os ovos... Mas que rebente uma revoluçãoem Espanha, ou que morra o Reizinho na sua menoridade, que naturalmente morre...

- Credo! Coitadinho! Pobre mãe! - murmurou Gracinha sensibilizada.

(continua...)

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