Por Machado de Assis (1891)
Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fora ninguém os via. Sós, completamente sós, como naquele dia em que às mesmas duas horas da tarde, em casa dela, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça estava livre; aqui, dentro do carro fechado, não podia calcular as conseqüências.
Rubião, entretanto, acomodara as pernas e não dizia nada.
CAPÍTULO CLII
SOFIA ENCOLHERA- SE muito ao canto. Podia ser estranheza da situação, podia ser medo, mas era principalmente repugnância. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia à incompatibilidade,-como direi que não agrave os ouvidos?a incompatibilidade da epiderme.
Onde iam os sonhos de há poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, à Tijuca, subiu com ele a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericórdia? Tudo esqueceu, tudo desapareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo carro e pelo escândalo. E os cavalos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da Rua Bela da Princesa. Que faria ela chegando ao Catete? Iria à cidade com ele? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga, deixá-lo-ia dentro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquela agonia, atravessaram-lhe o cérebro algumas memórias banais o estranhas à situação, como a notícia de um roubo de jóias lida de manhã nos jornais, a ventania da véspera, um chapéu. Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que ele continuava a olhar para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a atitude, tranqüila, séria, quase indiferente; mas então para que se meteu no carro? Sofia quis romper o silêncio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quase que a irritou a quietação do homem, cuja ação só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que ele próprio estaria arrependido, e disse-lho em bons termos.
-Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu ele, voltando-se. Quando a senhora disse que era mau irmos assim, à vista do público, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci
-Chegamos ao Catete, atalhou ela; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.
-Podemos andar à toa.
-Como?
-A toa, os cavalos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem adivinhem...
-Pelo amor de Deus! não me fale assim; deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor toma conta dele. Que que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixá-lo à porta de casa . . .
-Mas eu saí há pouco de casa, vou para a cidade. Que mal há em levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, apeio-me, em qualquer lugar, -na Praia de Santa Luzia, por exemplo,-do lado do mar...
-O melhor é descer aqui mesmo.
-Mas por que não iremos até à cidade?
-Não, não pode ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escândalo. vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?
Apesar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em fazê-la sentar-se outra vez.
-Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.
-Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no céu...
-Deve estar no céu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães são sempre boas; mas daquela, ninguém que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era uma santa. E prendada, como pousas. Que dona de casa! Hóspedes, para ela, tanto fazia cinco como cinqüenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe o nome de Sinhá Mãe, porque era realmente, mãe para todos. Deve estar no céu!
-Bem, bem, atalhou Sofia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz? -Isto quê?
-Apear-se aqui mesmo.
-E ir a pé para a cidade? Não posso. É cisma sua; ninguém nos vê. E depois estes seus cavalos são magníficos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...
Cansada de pedir, Sofia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era possível, ao cantinho do carro.
-Agora me lembro, pensou ela; mando parar à porta do armazém do Cristiano; digo lhe o modo por que este homem se introduziu no coupé, os pedidos que lhe fiz e as respostas que me deu. Antes isso que fazê-lo apear misteriosamente em qualquer rua.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.