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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur sentiu o Roma dar uma risadinha, ao travar o braço de Melchior. Voltou-se e o poeta, pelas costas, pareceu-lhe mais odioso ainda, com os quadris gordos, as calças esfiadas atraz, a cabelleira secca, cobrindo um cachaço espesso.

Melchior foi pontual, e logo da porta, deitando o chapéu para a nuca :

— Diga cá, Você teve alguma cousa com o Ro-

Não . . . Nada. Era a primeira vez que o via !

— Pareceu-me — disse Melchior. E accrescentoa, com palavras vagas, que a rapaziada devia ser unida. Questões litterarias não serviam p'ra nada . . . E atirando-se para a poltrona : — Então que me quer.ia você dizer ?

Arthur explicou : desejava fazer imprimir os Esmaltes e Joios.

Segundo Melchior, nada mais facil : o Gonçalves, o revisor, o das barbas, um espertalhão, levava-os aos Castros, que lhe faziam um volume catita; depois, o Gonçalves se encarregaria de o pôr nos li-

vreiros á commissão. Lá em editor nem pensar. Um editor para um livro de poesias — era mais rae,il achar um diamante no Chiado. Que se fiasse li'elle !

Arthur concordou, e fallou dos Amores de Poeta : desejava fazer uma leitura a um director de theatro. O melhor parecia-lhe o D. Maria . . .

Melchior, fazendo beiços grossos, cofiava o bigode, calado.

— Isso é mais serio — murmurou por fim.

Arthur olhava-o quasi anciosamente,

—É mais serio — repetiu o outro, com um bamboleamento grave da cabeça.

Mas a sineta do jantar tocou, e Melchior ergueu-se d'um salto : — estava a cahir de fome ! E lavando ruidosamente as mãos :

— Havemos de pensar n'isso. Isso é mais serio ! Por timidez Arthur não insistiu, e mesmo, tiran do-lhe a escova das mãos, escovou-lhe nas costas o jaquetão claro.

A extremidade da mesa, junto á porta, estava deserta : sentaram-se alli, e logo depois Meirinho appareceu, esfregando as mãos, jovial, refeito peúi somneca ; d'ahi a pouco entrou o Padilhão, grave, e, como disse Melchior « fizeram uma panellinha catita b.

Arthur, no centro, dilatava-se de prazer. Logo depois da sopa, que era uma má purée de petits pois, e a proposito da nomenclatura franceza dos menus, Meirinho contou anecdotas de Paris : era muito bonapartista. Segundo elle, « depois do Imperio, a França decahiaa olhos vistos, Paris já não era Paris». Era tambem a opinião do Padilhão, que tinha idéas catholicas e o amor da aristocracia. Lembrando o Imperio, Meirinho contou uma historia, ligeiramente obscena, da Princeza Mathilde, « que era de resto uma excellente senhora ». Vieram anecdotas sujas : Melchior disse a do padre surprehendido pelo marido, Meirinho acudiu com a do padeiro e o Padilhão, com a sua bella face pallida, contou, imitando as vozes, a da ingleza e do gendarme. A cada trecho mais torpe, torciam-se d'hilaridade : ás vezes ficavam sobre os pratos, fungando ainda um momento do sabor da indecencia. Aquillo punha alli um canto privilegiado de alegria chula, e sujeitos graves, no fundo da mesa, mastigando, olhavam com inveja aquelle grupo divertido, todo prospero de riso e de chalaça. Um individuo d'oculos reclamou mesmo, do topo da mesa, que contassem alto

— Isto é cá para nós, — gritou Meirinho — isto é cá p'ra panellinha !

Arthur recostou-se com satisfação, feliz de ser da panellinha ». Ria exageradamente : contou tambem uma porcaria e ficou lisonjeado da gargalhada do Meirinho, do riso solemne do Padilhão. Acharam-no engraçado. Então Meirinho lembrou que elle devia pagar a patente, com uma garrafinha de Champagne, mas accrescentou logo, batendo-lhe na perna, que estava a brincar, que era chalaça. Arthur porém, insistia — queria pagar a patente — e Meirinho, immediatamente, pediu uma garrafa de Cliquot. Foi urn momento muito cordeal de sympathia expansiva.

— Você calha-me, Arthur—dizia-lhe Melchior; e como Meirinho e Padilhão fallavam de relações, de soirées : — Sabe você o que me parece -É que antes de levar o drama ao D. Maria, você devia co nhecer a rapaziada.

Mas como Elle não podia ir em romaria, pelas casas dos poetas, dos folhetinistas, apertar mãos, travar amizades ! . . .

— Tem-me estado a lembrar, — disse Melchior. pondo o cotovello na mesa, fallando-lhe muito intimamente-— é neeessario apanhai-os juntos. Sabe como ? N 'um jantarinho.

E muito prolixamente explicou que os litteratos eram uns exquisitos. Necessitavam de considerações. Não havia como um jantar : — Você convida os principaes, e antes da sopa, zás, lê-lhes as principaes passagens do drama. Ao outro dia a imprensa falla, a cousa chega aos ouvidos dos emprezarios, já prevenidos: e como o drama é bom, traz ! Logo em seguida, distribuiçãozinha dos papeis, etc., etc.... Arthur, radiante, via-se já no oalco, cercado de actrizes lindas, distribuindo creações I



(continua...)

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