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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro murmurou: "Bem fazemos nós em pecar!" - Mas Amélia desfalecia fatigada... "Durmamos, meu amor!" E, deitados, viam estrelas flutuando numa poeirada como o joio sacudido vivamente do crivo. Então nuvens começaram a dispor-se em torno deles, em pregas de cortinados, dando um perfume de sachets: Amaro pousou a sua mão sobre o peito de Amélia: um enleio muito doce enervava-os: enlaçaram-se, os seus lábios pegavam-se úmidos e quentes: - "Oh, Ameliazinha! " murmurava ele. - "Amo- te, Amaro, amo-te! " suspirava ela. - Mas de repente as nuvens afastaram- se como os cortinados dum leito; e Amaro viu diante o diabo que os alcançara, e que, com as garras na cinta, esgaçava a boca numa risada muda. Com ele estava outro personagem: era velho como a substância; nos anéis dos seus cabelos vegetavam florestas; a sua pupila tinha a vastidão azul dum oceano; e nos dedos abertos com que cofiava a barba infindável, caminhavam, como em estradas, filas de raças humanas. - "Aqui estão os dois sujeitos", dizia-lhe o diabo retorcendo a cauda. E por trás Amaro via aglomerarem-se legiões de santos e de santas. Reconheceu S. Sebastião com as suas setas cravadas; Santa Cecília trazendo na mão o seu órgão; por entre eles sentia balarem os rebanhos de S. João; e no meio erguia-se o bom gigante S. Cristóvão apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro não se podia desenlaçar de Amélia, que chorava muito baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente colados; e Amaro, aflito, via que as saias dela levantadas descobriam os seus joelhos brancos. - "Aqui estio os dois sujeitos", dizia o diabo ao velho personagem "e repare o meu prezado amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena tem bonitas pernas! " Santos vetustos alçaram-se sofregamente em bicos de pés, estendendo pescoços onde se viam cicatrizes de martírios: e as onze mil virgens bateram o vôo como pombas espavoridas! Então o personagem, esfregando as mãos de onde se esfarelavam universos, disse grave: "Fico inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor pároco, vai-se à Rua da Misericórdia, arruina-se a felicidade do Sr. João Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliazinha à mamã, e vem-se saciar concupiscências reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou velho - e está rouca esta voz que outrora tão sabiamente discursava pelos vales. Mas pensa que me assombra o Sr. conde de Ribamar, seu protetor, apesar de ser um pilar da Igreja e uma coluna da Ordem? Faraó era um grande rei - e eu afoguei-o, e os seus príncipes cativos, os seus tesouros, os seus carros de guerra, e as manadas dos seus escravos! Eu cá sou assim! E se os senhores eclesiásticos continuarem a escandalizar Leiria - eu ainda sei queimar uma cidade como um papel inútil, e ainda me resta água para dilúvios!" E voltando-se para dois anjos armados de espadas e lanças, o personagem bradou: "Chumbem uma grilheta aos pés do padre, e levem-no ao abismo número sete!". E o diabo gania: "Aí estão as conseqüências, Sr. padre Amaro!" Ele sentiu-se arrebatado de sobre o seio de Amélia por mãos de brasa; e ia lutar, bradar contra o juiz que o julgava - quando um sol prodigioso que vinha nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, com um grito, reconheceu o Padre Eterno!

Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janela.

•••

Nessa noite João Eduardo, indo da Praça para casa da S. Joaneira, ficou assombrado, ao ver aparecer à outra boca da rua, do lado da Sé, o Santíssimo em procissão.

E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de mantéu pela cabeça, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o pálio os dourados da estola do pároco reluziam; uma campainha tocava adiante, às vidraças apareciam luzes; - e na noite escura o sino da Sé repicava, sem descontinuar.

João Eduardo correu aterrado - e soube logo que era a extrema-unção á entrevada.

Tinham posto na escada um candeeiro de petróleo sobre uma cadeira. Os serventes encostaram à parede da rua os varais do pálio, e o pároco entrou. João Eduardo, muito nervoso, subiu também: ia pensando que a morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o a presença do pároco e a influência que ele adquiria naquele momento; e foi quase quezilado que perguntou à Ruça na saleta:

- Então como foi isto?

- Foi a pobre de Cristo que esta tarde começou a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava a acabar e a senhora mandou pelos sacramentos.

João Eduardo, então, julgou delicado ir assistir "à cerimônia".

O quarto da velha era junto à cozinha; e tinha naquele momento uma solenidade lúgubre. Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um prato com cinco bolinhas de algodão entre duas velas de cera. A cabeça da entrevada, toda branca, a sua face cor de cera mal se distinguiam do linho do travesseiro; tinha os olhos estupidamente dilatados; e ia apanhando incessantemente com um gesto lento a dobra do lençol bordado.

A S. Joaneira e Amélia rezavam ajoelhadas à beira da cama; a Sra. D. Maria da Assunção (que casualmente entrara, ao voltar da fazenda) ficara à porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares, murmurando Salve-Rainhas. João Eduardo, sem ruído, dobrou o joelho junto dela.

O padre Amaro, curvado quase ao ouvido da entrevada, exortava-a a que se abandonasse à Misericórdia divina; mas vendo que ela não compreendia, ajoelhou, recitou rapidamente o Misereatur; e no silêncio, a sua voz erguendo-se nas sílabas latinas mais agudas, dava uma sensação de enterro que enternecia, fazia soluçar as duas senhoras. Depois ergueu-se, molhou o dedo nos santos óleos; murmurando as expressões penitentes do ritual ungiu os olhos, o peito, a boca, as mãos - que há dez anos só se moviam para chegar a escarradeira, e as plantas dos pés que há dez anos só se aplicavam a buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas de algodão úmidas de óleo, ajoelhou-se, ficou imóvel, com os olhos postos no Breviário.

João Eduardo voltou em pontas de pés á sala, sentou-se no mocho do piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas, Amélia não tornaria a tocar... E uma melancolia amoleceu-o, vendo no doce progresso do seu amor aquela brusca interrupção da morte e dos seus cerimoniais.

A Sra. D. Maria entrou então, toda transtornada daquela cena - e seguida de Amélia que trazia os olhos muito vermelhos.

(continua...)

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