Por Eça de Queirós (1900)
S. Exa. provou com devoção, como se comungasse. E com uma cortesia compenetrada para Barrolo que reluzia de gosto:
- Uma delícia! uma verdadeira delícia!
- Hem? Não é verdade? Eu, para mim, prefiro este vinho do Corvelo a todos os vinhosfranceses, os mais finos... Até ali o nosso amigo Padre Soeiro, que é um Santo, o aprecia!
Silencioso, esbatido por trás duma das altas jarras de cravos, Padre Soeiro corou, sorriu:
- Com muita água, infelizmente, Sr. José Barrolo... O gosto pede, mas o reumatismo nãoconsente.
Pois José Mendonça, que não temia reumatismos, atacava sempre bravamente aquele bendito Corvelo...
- Que lhe parece a você, João Gouveia?
Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus! E certamente nunca encontrara em Portugal, como vinho branco, nenhum comparável pela frescura, pelo aroma, pela seiva...
- E cá lhe vou atiçando com fervor, Barrolo amigo! Esta bela garrafa de cristal vai de vencida!
Barrolo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo nunca honrasse "aquele néctar". - Não! Gonçalo não tolerava vinhos brancos...
- E então hoje estou com uma destas sedes que só me satisfaz vinho verde, assim um poucoespumante, e com gelo... Que este de Vidainhos também é do Barrolo. Oh, eu não desprezo os vinhos da família... Este Vidainhos sinceramente o considero sublime.
Então Cavaleiro desejou provar esse sublime vinho verde da quinta de Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno entusiasmado do Barrolo, apresentou a S. Exa. um copo esguio, especial para aquele vinho que espumava. Mas o Cavaleiro, acariciando o fresco copo sem o erguer, repisou a idéia de férias, de viagens, como acentuando o seu cansaço e fastio de Oliveira. - E sabia a Sra. D. Graça para onde ele seguiria, depois da Itália, nesse inverno, se por caridade de Deus o Ministério caísse?... Para a Ásia Menor.
- E era uma viagem para que eu, com certeza, tentava o nosso Gonçalo... Tão fácil, agora, comos caminhos de ferro!... De Veneza a Constantinopla um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Esmirna, um dia, dois dias, num vapor excelente. E daí numa boa caravana, por Tripoli, pela antiga Sidônia, penetrávamos em Galiléia... Galiléia! Hem, Gonçalo? Que beleza!
Padre Soeiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente - que em Galiléia o Sr. Gonçalo Ramires pisaria terra que outrora, por pouco, pertencera à sua Casa:
- Um dos antepassados de V. Exa., Gutierres Ramires, companheiro de Tancredo na primeiraCruzada, recusou o ducado de Galiléia e de Além-Jordão...
- Fez pessimamente! - gritou Gonçalo, rindo. - Oh, esse avô Gutierres andou pessimamente!
Porque não existia agora, neste mundo, disparate mais divertido do que eu Duque de Galiléia! O Sr. Gonçalo Mendes Ramires, Duque de Galiléia e de Além-Jordão!... Era simplesmente de rebentar!
Cavaleiro protestou, com simpatia:
- Ora essa! Por quê?
- Não acredite! - acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria Mendonça. - O primo Gonçalo, comtodas estas graças, no fundo, é muitíssimo aristocrata... Mas terrivelmente aristocrata!
O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois dum trago saboreado e fundo:
- Aristocrata... Está claro que sou aristocrata. Sentiria com efeito certo desgosto em ter nascido,como uma erva, de outras ervas vagas. Gosto de saber que nasci de meu pai Vicente, que nasceu de seu pai Damião, que nasceu de seu pai Inácio, e assim sempre até não sei que Rei Suevo...
- Recesvinto! - informou respeitosamente Padre Soeiro.
- Pois até esse Recesvinto. O pior é que o sangue de todos esses pais não difere realmente dosangue dos pais do Joaquim da Porta. E que depois do Recesvinto, para trás, até Adão, não tenho mais pais!
E, enquanto todos riam, D. Maria Mendonça, debruçada para ele, por trás do leque largamente aberto, murmurou:
- O primo está com esses desprezos... Pois eu sei duma senhora que tem a maior admiraçãopela Casa de Ramires e pelo seu representante.
Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, atento à espuma;
- Bravo! "Mas convém distinguir", como diz o Manuel Duarte. Por quem tem ela a verdadeiraadmiração, por mim ou pelo Suevo, pelo Recesvinto?
- Por ambos.
- Diabo!
Depois, pousando a garrafa, mais sério:
- Quem é?
Oh! ela não podia confessar. Não era ainda bastante velha para andar com recadinhos de sentimento. Mas Gonçalo dispensava o nome - só desejava as qualidades... Nova? Bonita?
- Bonita? - exclamou D. Maria. - É uma das mulheres mais formosas de Portugal!
Espantado, Gonçalo lançou o nome:
- A D. Ana Lucena!
- Por quê?
- Porque mulher assim tão formosa, e vivendo nestes sítios, e tão conhecida da prima que lhefaz confidências, só a D. Ana.
D. Maria, ajeitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de seda preta, sorria:
- Talvez seja, talvez seja...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.