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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Os perfectionists exagerados rompem, então, lógicos, dentre o industrialismo triunfante da América do Norte, e a sombria Sturmisch, inexplicavelmente inspirada pelo gênio de Klopstock, comparte o berço da renascença alemã...

Entre nós o fenômeno foi porventura ainda mais explicável.

Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos ...

E quando pela nossa imprevidência inegável deixamos que entre eles se formasse um núcleo de maníacos, não vimos o traço superior do acontecimento. Abreviamos o espírito ao conceito estreito de uma preocupação partidária. Tivemos um espanto comprometedor ante aquelas aberrações monstruosas; e, com arrojo digno de melhores causas, batemo-los a carga de baionetas. reeditando por nossa vez o passado, numa "entrada" inglória, reabrindo nas paragens infelizes as trilhas apagadas das bandeiras...

Vimos no agitador sertanejo, do qual a revolta era um aspecto da própria rebeldia contra a ordem natural, adversário sério, estrênuo paladino do extinto regímen, capaz de derruir as instituições nascentes.

E Canudos era a Vendéia...

Entretanto, quando nos últimos dias do arraial foi permitido o ingresso nos casebres estraçoados, salteou o animo dos triunfadores decepção dolorosa. A vitória duramente alcançada dera-lhes direito à devassa dos lares em ruínas. Nada se eximiu à curiosidade insaciável.

Ora, no mais pobre dos saques que registra a História, onde foram despojos opimos imagens mutiladas e rosários de coco, o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer escritos e, principalmente os desgraciosos versos encontrados. Pobres papéis, em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles resumiam a psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam. Registravam as prédicas de Antônio Conselheiro; e, lendo-as, põe-se de manifesto quanto eram elas afinal inócuas, refletindo o turvamento intelectual de um infeliz. Porque o que nelas vibra em todas as linhas é a mesma religiosidade difusa e incongruente, bem pouca significação política, permitindo emprestar-se às tendências messiânicas expostas. O rebelado arremetia com a ordem constituída porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido. Prenunciava-o a República — pecado mortal de um povo —heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do anti-Cristo. Os rudes poetas, rimando-lhe os desvairos em quadras incolores, sem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos, deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados, que deletreamos pensando, como Renan, que há, rude e eloqüente, a segunda Bíblia do gênero humano, nesse gaguejar do povo.

Copiemos ao acaso alguns:

"Sahiu D. Pedro segundo

"Para o reino de Lisboa

"Acabosse a monarquia

“O Brasil ficou atôa !

A República era a impiedade:

"Garantidos pela lei

"Aquelles malvados estão

"Nós temos a lei de Deus

"Elles tem a lei do cão !

"Bem desgraçados são elles

"Pra fazerem a eleição

"Abatendo a lei de Deus

"Suspendendo a lei do cão !

"Casamento vão fazendo

"Só para o povo iludir

''Vão casar o povo todo

"No casamento civil!

O governo demoníaco, porém, desaparecerá em breve:

"D. Sebastião já chegou

"E traz muito regimento

"Acabando com o civil

"E fazendo o casamento !

"O Anti-Cristo nasceu

"Para o Brasil governar

"Mas ahi está o Conselheiro

"Para delle nos livrar!

“ Visita nos vem fazer

“Nosso rei D. Sebastião.

“Coitado daquelle pobre

“Que estiver na lei do cão!

A LEI DO CÃO...

Este era o apotegma mais elevado da seita. Resumia-lhe o programa.

Dispensa todos os comentários.

Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados...

Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta.

Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador — a bala.

Mas antes tentou-se empresa mais nobre e mais prática.

UMA MISSÃO ABORTADA

(continua...)

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