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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Foi ele! Difamou os íntimos da casa, sacerdotes de ciência e de posição; desacreditou-a a ela; passa as noites em deboche na pocilga do Agostinho; insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligião; há seis anos que se não confessa! Como diz o colega Natário, é uma fera! Pobre menina! Não, não podia casar com um homem que lhe impediria a vida perfeita, lhe achincalharia as boas crenças! Não a deixaria rezar, nem jejuar, nem procurar no confessor a direção salutar, e, como diz o santo padre Crisóstomo, "amadureceria a sua alma para o inferno"! Ele não era seu pai, nem seu tutor; mas era pároco, era pastor: - e se a não subtraísse àquele destino herético pelos seus conselhos graves, pela influência da mãe e das amigas, - seria como aquele que tem a guarda dum rebanho numa herdade, e abre indignamente a cancela ao lobo! Não, a Ameliazinha não havia de casar com o ateu!

E o seu coração então batia forte sob a efusão daquela esperança. Não, o outro não a possuiria! Quando viesse a apoderar-se legalmente daquela cinta, daqueles peitos, daqueles olhos, daquela Ameliazinha - ele, pároco, lá estava para dizer alto: Para trás, seu canalha! isto aqui é de Deus!

E tomaria então bem cuidado em guiar a pequena à salvação! Agora o Comunicado estava esquecido, o senhor chantre tranqüilizado: daí a dias poderia voltar sem susto à Rua da Misericórdia, recomeçar os deliciosos serões - apoderar-se de novo daquela alma, formá-la para o Paraíso...

E aquilo, Jesus! não era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito retos, muito puros: aquilo era um trabalho santo para a arrancar ao Inferno: ele não a queira para si, queria-a para Deus!... Casualmente, sim, os seus interesses de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. Mas se ela fosse vesga e feia e tola, ele iria igualmente à Rua da Misericórdia, em serviço do Céu, desmascarar o Sr. João Eduardo, difamador e ateu!

E, sossegado por esta argumentação, deitou-se tranqüilamente.

Mas toda a noite sonhou com Amélia. Tinha fugido com ela: e ia-a levando por uma estrada que conduzia ao Céu! O diabo perseguia-o; ele via-o, com as feições de João Eduardo, soprando e rasgando com os cornos os delicados seios das nuvens. E ele escondia Amélia no seu capote de padre, devorando-a por baixo de beijos! Mas a estrada do Céu não findava. - "Onde é a porta do paraíso?" perguntava ele a anjos de cabeleiras de ouro que passavam, num doce rumor de asas, levando almas nos braços. E todos lhe respondiam: - "Na Rua da Misericórdia, na Rua da Misericórdia número nove!" Amaro sentia-se perdido; um vasto éter cor de leite, penetrável e macio como uma penugem de ave, envolvia-o; e ele procurava debalde uma tabuleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto dele um globo reluzente de onde saía o rumor duma criação; ou um esquadrão de arcanjos, com couraças de diamantes, erguendo alto espadas de fogo, galopavam num ritmo nobre...

Amélia tinha fome, tinha frio. "Paciência, paciência, meu amor!" dizia-lhe ele. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que tinha na mão uma palma verde. "Onde está Deus, nosso pai?" perguntou-lhe Amaro, com Amélia conchegada ao peito. A figura disse: - "Eu fui um confessor, e sou um santo: os séculos passam, e imutavelmente, sempiternamente sustento na mão esta palma e banha-me um êxtase igual! Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensação sacode o meu ser para sempre imaculado; e imobilizado na bem-aventurança, sinto a monotonia do Céu pesar-me como uma capa de bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos nas torpezas diferentes da Terra - ou bracejar, sob as variedades da dor, nas chamas do purgatório!"

(continua...)

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