Por Eça de Queirós (1900)
Mas à tarde, quando o Fidalgo ocupou o seu lugar na mesa oval, junto da prima Maria Mendonça - logo notou, entre duas compoteiras, uma travessa de ovos queimados. Apesar de jantar tão íntimo serviam, com a louça da China, os famosos talheres dourados da baixela do tio Melchior. E duas jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarelos, cores heráldicas dos Ramires.
D. Maria, que não encontrara o querido primo desde os anos de Gracinha, murmurou com um sorriso, uma grave cortesia, naquele cerimonioso silêncio em que se desdobravam os guardanapos:
- Ainda lhe não dei os parabéns, primo Gonçalo...
Ele acudiu, mexendo nervosamente nos copos:
- Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidido, não se alude sequer à Política... Está muito calorpara Política.
Ela suspirou de leve, como desfalecida: Ai, o calor... Que horrível calor! Desde que entrara nos Cunhais com aquele vestido preto que "era o seu pálio rico - ainda não cessara de invejar a frescura do vestido branco de Gracinha...
- Que bem que lhe fica! Está hoje linda!
Era um vestido liso de crepom branco, que aclarava, remoçava a sua graça quase virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina, com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma ondulação mais lustrosa nos pesados cabelos, um macio rubor transparente, todo um fresco brilho de flor regada, de flor revivida, apesar do acanhamento que lhe imobilizava os dedos ao erguer a colher de prata dourada. E ao lado, superiormente robusto e largo, com o petilho arqueado como uma couraça e cravejado de duas safiras, uma rosa branca desabrochada na lapela, André Cavaleiro, que recusara a sopa (oh, no verão nunca comia sopa!), dominava a mesa, levemente comovido também, passando sobre o reluzente bigode um lenço tão perfumado que afogava o perfume dos cravos. Mas foi ele que encadeou a animação com risonhos queixumes sobre o calor - o escandaloso calor de Oliveira... Ah! que Purgatório abrasado - depois dos seus dois dias de Paraíso, na frescura deliciosa de Sintra!
D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos para o Sr. Governador Civil. - E então Sintra? Animada? Muitos ranchos à tarde, em Seteais? Encontrara a Condessa de Cheias - a prima Chelas?...
Sim, na Pena, na sua visita à Rainha, Cavaleiro conversara durante um momento com a Sra. Condessa de Chelas...
- Ah! E a Rainha?...
- Oh, sempre encantadora...
A Sra. Condessa de Chelas, essa, um pouco magra. Mas tão amável, tão inteligente, tão verdadeiramente grande dame - não é verdade? E, como se inclinara para Gracinha, com uma doçura infinita no simples mover da cabeça - ela, perturbada, mais vermelha, balbuciou que não conhecia a Condessa de Cheias... -D. Maria Mendonça acusou logo a inércia dos primos Barrolos, sempre encafurnados nos Cunhais, sem nunca se aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para conhecer os parentes...
- E a culpa é do primo José, que detesta Lisboa... Oh, não! Barrolo não detestava Lisboa! Sepudesse acarretar para Lisboa as suas comodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa água do pomar, a rica varanda sobre o jardim - até se regalava!
- Mas entalado naqueles quartinhos do Bragança... E depois a má comida, o barulho... AGracinha em Lisboa nunca dorme... E a maçada das manhãs?... Não há nada que fazer em Lisboa, de manhã!
O Cavaleiro sorria para o Barrolo, como enlevado na sua graça e razão. Depois confessou que ele, apesar de habitar também (mercê do Estado!) um palacete confortável, e gozar também uma água excelente, a finíssima água do Poço de S. Domingos. lamentava que os deveres de Política, a disciplina de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua esperança era a queda do Ministério, para se libertar, passar três meses divinos cm Itália...
Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sempre acanhado e mudo diante de senhoras) exclamou, num impulso de amizade, de convicção:
- Pois, Andrezinho, vai perdendo a esperança! O S. Fulgêncio não arreia! Ainda cá te apanhamos uns três ou quatro anos!
E insistiu, debruçado sobre Gracinha, num esforço de amabilidade que o esbraseava:
- O S. Fulgêncio não arreia. Ainda cá temos o nosso André mais três ou quatro anos.
André protestava, com um requebro, as espessas pestanas quase cerradas:
- Oh, meu João! não me queiras mal, não me queiras mal!...
E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que importa em hoste poderosa uma lança ferrugenta?) esses meses de Itália no inverno já os sonhara, já os preparava... - E a Sra. D. Graça não permitia que ele a servisse de um pouco de vinho branco?
Barrolo estendeu o braço, com efusão:
- Oh Cavaleiro! eu tenho empenho em que você prove esse vinho com cuidado... E da minha propriedade do Corvelo... Faço muito gosto nele. Mas prove com atenção!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.