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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

De resto, neles vou buscar elementos para o estudo da vida doméstica, comercial e sentimental da nossa sociedade.

Há um divórcio escandaloso ou uma questão de pátrio poder sobre menores com grossa herança, corro aos apedidos e sou informado de coisas de alcova que me deliciam e me edificam sobre a fraqueza da nossa pobre humanidade, diante dos inimigos do homem de que falam os Evangelhos.

Com surpresa, pela transcrição de documentos insofismáveis, vejo cidadãos austeros e graves, como velhos senadores de Roma, acomodar muito bem o seu ardor monogâmico, o seu horror ao divórcio e as suas opiniões catolicíssimas sobre o caráter sacramental do casamento com um assentimento público, e escritos pelo próprio punho, a uma ligação de desquitados que se casaram nos “bíblias”.

E muitas mais outras coisas há nos apedidos. Esperem o meu tratado.

Não posso deixar, porém, de chamar já atenção dos leitores, para uns artigos que o senhor Isidro Gonçalves vem publicando há tempos na celebrada seção. Designou-os com o título geral de Mansão Olímpica.

Lendo-os a impressão que dão, não é de placidez, de serenidade a reinar entre deuses e deusas, que pairam acima das paixões e tormentos humanos.

É verdade que o senhor Isidro podia me objectar que os deuses nem sempre ficaram acima das nossas paixões e erros. Júpiter era um frascário de marca maior; Vênus não era lá uma senhora de bons costumes; o seu marido Vulcano fabricava raios terríveis para o Deus dos deuses, mas deixa em paz Marte e um tal de Adonis que lhe desonravam o tálamo278 conjugal. Disse-me um amigo que isso ele fazia porque ainda não se havia inventado o revólver; de resto, arredondava ele a explicação, Marte era imortal, como Deus, e Adonis havia de ser um jovem, com a proteção de Afrodite.

Não podiam ser mortos... Os concílios dos deuses, apesar da autoridade de mestre Júpiter, não deixam de ser mais ordeiros do que uma sessão na Câmara dos Deputados. Durante a guerra de Tróia, os que houve, com certeza acabavam como as nossas partidas de football. isto é, em rolo grosso, tal era a rivalidade dos deuses que cada um tinha o seu partido.

Sei bem disso, senhor Isidro, mas a idéia de Mansão ainda por cima adjetivamente de – Olímpica – traz logo a idéia de serenidade, de ordem, placidez pacato entendimento.

Entretanto, os seus artigos são agitados, conturbados, cheios de obscuridades atormentadoras. Eles estão para a idéia de mansão como o sossegado tabuleiro da Urca está para a agitação interna e sem fio condutor algum que há naquele casarão vizinho daquela montanha: o hospício.

Em todo o caso, os artigos são instrutivos e sugestivos. Eles, certamente, levarão o seu autor à glória ou a outro lugar próximo. Produzidos em verso e prosa, denunciam um escritor sábio, erudito e um poeta sensível e alumiado por um suave e melancólico crepúsculo íntimo.

Vejam estas trovas com que ele fechou o artigo de 15 de dezembro:

A vida tem desenganos!

Que fazem pasmar a mente!

Cuja alma sentiu e sente

Bem melhor que os levianos.

E assim foi sempre o mundo!

E assim o há de ser!

Não em parte! mas inteiro!!!

Leitor! se em algo és profundo,

Dá-me o teu modo de ver:

Se ele for justiceiro.

Depois dessa leitura, respondam-me os leitores: é ou não um grande prazer ler o apedidos?

Careta, Rio, 8-1-1921.

A QUESTÃO DOS TELEFONES

Andam sempre os jornais com uma birra, uma briga por causa do serviço telefônico desta cidade.

Implicam sempre com a Light, mas creio que esta poderosa companhia é simplesmente pseudônimo de uma outra que tem um nome alemão.

Das muitas inutilidades que, para mim, está cheia esta vida, o telefone é uma delas. Passam-se anos e anos que não ponho um fone ao ouvido; e, de resto quando me atrevo a servir-me de um desses aparelhos, desisto logo. Entre as razões está a que não compreendo absolutamente a numeração das moças do telefone. Se digo seis qualquer coisa, a telefonista imediatamente me corrige: meia dúzia qualquer coisa. Não quero expor a minha sabedoria em elementos de aritmética; mas meia-dúzia é uma coisa, pois nunca vi, dizer meia dúzia vinte e sete e sim seiscentos e vinte e sete.

Esta é uma das minhas quizílias com o telefone. Uma outra é a tal história: “está em ligação”; e há mais.

De forma que muito me surpreende esse interesse dos jornais por esse negócio de telefones.

Observei, porém, que as moças gostam muito de falar no aparelho.

Não se entra numa casa de negócio de qualquer ordem que não se encontre uma dama a falar ao fone:

– Minha senhora, faz favor? – Sete meia dúzia três, Vila.

– ?

– Sim, minha senhora.

Durante cinco minutos a dama troca com a invisível Alice frases ternas e dá risadinhas.

Perguntei a um negociante da minha amizade:

– Que querem essas moças tanto com o telefone?

(continua...)

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