Por Bernardo Guimarães (1883)
— Eu mesmo não sei o que elfe diz ; não escuto nada, e vou correndo para longe, por que tenho muito respeito, e. . .
A pobre escravinha queria ainda dizer muita cousa, mas dc embaraçada não sabendo explicar-se, nada mais poudc dizer c parou na reticencia, esperando mais alguma pergunta. Adelaide porém não quiz insistir mais ; uma sinistra desconfiança lhe havia atravessado o espirito ; a boa e simples Rozaura não quiz declarar á sua senhora toda a verdade, porque apezar de sua pouca edade era assisada e discreta, e não queria atear o facho da discordia no seio da familia com suas hesitações, porém com suas respostas timidas e evasivas teve a infelicidade de produzir um effeito mil vezes peor do que aquelle que desejava evitar. Notando as phrases indecisas, a perturbação e enleio de Rozaura, entrou pelo espirito de Adelaide a suspeita de que Rozaura era cumplico na deslealdade de seu marido, ou que pelo menos acceitava sem repugnancia seus affagos, e por isso procurava encobrir-lhe a verdade. Julgou-se duplamente ultrajada em seu pundonor de esposa, e em sua qualidade de senhora, e tomou dahi cm diante tal indisposição contre a pobre escrava, que começou
a tratal-a não só com indifferença, mas com tão pronunciada malevolencia, que esmagava o ilinocente coração de Rozaura. E verdade que no fundo de sua alma não se extinguira de todo esse sentimento de terna sympathia, que Rozaura lhe havia inspirado desde a primeira vezem que a vira ; mas a cegueira do ciume suffocava quasi sempre esse sentimento, e a fazia tratar a escrava com o mais cruel desabrimento e aspereza. O máo humor de Adelaide subia de ponto, e já não havia naquella casa a bonança, união e contentamento de outros tempos. Adelaide ralhava sempre ; os meninos andavão espantados e em gritos vendo a bella captiva sempre amuada e chorosa, e a mãe a mimoseal-a com os edificantes epithetos de delambida, tarasca e outros quejandos, que elles felizmente não podião comprehender. O major estranhava mas nem de leve suspeitava o verdadeiro motivo da mudança de humor de sua filha, e perguntando a si mesmo a causa desse phenomeno, o attribuia á volta de lua, e talvez a algum novo astro, ainda em gestação, que vinha augmentar a brilhante pleiade de sua illustre descendencia. Moraes, sem deixar de activar suas diligencias para seduzir a infeliz menina, todavia andava cabisbaixo e desconfiado. Assim Rozaura vivia em continua tribulação entre as perseguições do senhor e a rispidez e malevolencia da senhora. O demonio da discordia tinha roçado sua aza negra por aquelle lar, ha pouco tão feliz, alegre e esperançoso.
CAPITULO IV
Descoberta.
Perseguições e tentativas as mais audaciosas não cessavão por parte de Moraes, que cada vez mais fascinado pelos provocadores encantos da captiva já tinha perdida a cabeça e pervertido o coração. Um dia, aproveitando occasião, que lhe pareceo azada, seus esforços tocárão a excessivo gráo de audacia e violencia ; a menina a muito custo poude escaparlhe dos braços toda desalinhada e com as roupas dilaceradas. Não teve animo de correr para junto de sua senhora naquelle estado de agitação e desalinho, receiosa de provocar uma scena do mais deploravel e vergonhoso escandalo, e talvez das mais terriveis consequencias. Erào quatro para cinco horas da tarde. Rozaura arrojou-se anhclante e tremula, como corsa escapada ás garras do jaguar, para um quarto interior, que era occupado por Lucinda, que nessa hora estava a fiar em um fuso de mão. Rozaura entrou bruscamente e atirou-se desatinada sobre a cama da velha preta, arquejante e abafando lagrimas e soluços que lhe empolavão os seios e lhe queimavão as palpebras.
— Que é isso, menina exclamou a preta, levantando-se assustada e chegando-se para perto de Rozaura. — O que é que te aconteceo?
Rozaura debruçada sobre a cama, escondendo o rostro e o seio, nada respondia e continuava a chorar e soluçar. Lucinda pegou-lhe brandamente nos braços, que estavão cruzados sobre o peito, e com carinho a fez sentar-se. O corpilho do vestido da menina todo lacerado e descosido deixava ver completamente nús os brancos e mimosos seios, que arfavão violentamente, tremulos e medrosos como duas alvas pombas, que se recolhem ao ninho fugindo ás garras do gravião.
De subito Lucinda soltou um grito de espanto, como si um raio luminoso lhe tivesse atravessado o espirito.
— Ah ! . . . meu Deos ! exclamou ella, espera, menina ; deixa ver o que é isto que você tem aqui debaixo do peito esquerdo.
A preta abaixou o rosto sobre o peito de Rozaura, e observou com attenção.
Jesus ! . sancto nome de Jesus ! murmurou ella com voz sumida, quasi fallando comsigo mesma, Que é isto, Deus grande !? será possivel, que esta Rozaura seja a filha de sinhá Adelaide ! . . . Rozaura, o que foi isto ; conta-me, — continuou ella com voz mais clara ; —o que é que você tem ? . . . sinhá te ralhou?
Não, — respondeo soluçando a pobre menina;—sinhá não me ralha; meu é senhor que me persegue.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.