Por Visconde de Taunay (1872)
—Há quantos dias apareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor. —Faz hoje, salvo engano, dez dias.
Até agora era uma rapariga forçada, sadia e rosada como um lambo; nem sei ate como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguém pode fiar-se na tal Vila de Sant'Ana; é uma peste de febres. Eu bem a não Queria levar até lá: mas ela pediu tanto age consenti! Demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de muita circunstância, a mulher do Major Melo Toques. .. Não conhece?
—Pois não.
—E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo à garrulice. —Quando pousei na vila, estive com ele.
—E não gostou? Aquilo sim é homem às direitas. Também é pau para toda a obra na Senhora Sant'ana, é o tutu de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas letras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Mora numa casa de andar e tem loja muito sortida, por sinal que bem baratinha para a distancia. E as histórias que conta? f: um nunca acabar. O homem parece que sabe o Império de cor e salteado! Nem o vigário! Olhe, Senhor Cirino, vou dizer-lhe uma coisa, que talvez lhe pareça embromação: às vezes dou um pulo até a vila só para bater língua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido: escorraçada e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia contando, galopeio até lá, e pego numa mapiagem que me enche as medidas. Não há...
—Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cirino. Mas, diga-me, Senhor Pereira; farei por aqui algum negócio?
—Homem, conforme. Gente doente é mato; mas também mofina como ela só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre não morre há muitos anos, e é homem de boas patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.
—Vosmecê traz bastante quina do comércio? perguntou em seguida.
—Trago, respondeu Cirino, mas é cara.
—Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo são serões.
Começou então o bom do Senhor Pereira a desenrolar as diversas moléstias que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas; e com este tema às ordens achou meios e modos de falar até quase perder o fôlego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preocupado, ou em todo caso, muito distraidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, saindo, de vez em quando, da apática atenção para instigar com a voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava comer os rebentões mais apetitosos do capim a grelar.
Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro. —Vosmecê a modo que está triste? disse ele. Deixou alguma coisa de seu lá por trás?
—Homem, para ser franco, respondeu Cirino dando um suspiro, deixei; e essa coisa é uma dívida... dívida de jogo.
—Isto é mau, retrucou o mineiro, fechando um tanto a cara. Por causa desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem à beira das estradas. Mas é coco grosso?
—Trezentos mil-réis.
—Já é gimbo graúdo. E com quem jogou?
—Com o Totó Siqueira, de Sant'Ana. Por isto pretendeu atrasar-me a viagem; mas prometi mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe um papel. No que estou pensando, e se acharei até lá meios de cumprir a palavra.
—Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.
—Não imagina, replicou Cirino com verdadeiro sentimento, quanto me tem amofinado essa maldita dívida. Não pelo dinheiro, que dele faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, coisa que nunca tinha feito na minha vida; isto sim...
—Pois meu rico senhor, prosseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram -nas suas casas, sossegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas e carreiros. Isso sim, é uma súcia de jogadores, que andam armados de baralhas e vísporas e, por dá cá aquela palha, empurram uma faca na barriga de um cristão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demônio do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres à toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Trairás, para cá de Camapuã cinco léguas, que trabalhava todo o ano na terra para vir jogar até perder o último cobre nas rancharias do Sucuriú.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.