Por Bernardo Guimarães (1865)
III
Ei-lo, que vem, de ferro e fogo armado,
Da destruição o gênio formidável,
Em sua fatal marcha devastando
O que de mais esplêndido e formoso
Alardeia no ermo a natureza;
Que nem somente o íncola das selvas
De seu furor foi vítima; – após ele
Rui também a cúpula virente,
Único abrigo seu, – sua riqueza.
Esta trêmula abóbada, que ruge
Por seculares troncos sustentada,
Este silêncio místico, estas sombras,
Que agora me derramam sobre a fronte
Suave inspiração, cismar saudoso,
Vão em breve morrer ; – lá vem o escravo,
Brandindo o ferro, que dá morte às selvas,
E – afanoso – põe peito à ímpia obra: –
Já o tronco, que os séculos criaram,
Ao som dos cantos do africano adusto
Geme aos sonoros, compassados golpes,
Que vão nas brenhas ressoando ao longe;
Soa o último golpe, – range o tronco,
O tope excelso trêmulo vacila,
E desabando com gemido horrendo
Restruge qual trovão de monte em monte
Nas solidões profundas reboando.
Assim vão baqueando uma após outra
Da floresta as colunas venerandas;
E todas essas cúpulas imensas,
Que inça há pouco no céu balanceando,
A sanha dos tufões desafiavam,
Aí jazem, como ossadas de gigantes,
Que num dia de cólera prostrara
O raio do Senhor.
Oh! mais terrível
Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio
Vem consumar essa obra deplorável.....
Qual hidra formidável, no ar exalça
A crista sanguinosa, sacudindo
Com medonho rugido as ígneas asas,
E negros turbilhões de fumo ardente
Das abrasadas fauces vomitando,
Em hórrido negrume os céus sepulta.....
Estala, ruge, silva, devorando
Da floresta os cadáveres gigantes;
Voam sem tino as aves assustadas
No ar soltando pios lamentosos,
E as feras, em tropel tímidas correm,
A se embrenhar no fundo dos desertos,
Onde vão demandar nova guarida.....
Tudo é cinza e ruína: – adeus, ó sombra,
Adeus, murmúrio, que embalou meus sonhos,
Adeus, sonoro frêmito das auras,
Sussurros, queixas, suspirosos ecos,
Da solidão misterioso encanto!
Adeus! – Em vão a pomba esvoaçando
Procura um ramo em que fabrique o ninho;
Em vão suspira o viajor cansado
Por uma sombra, onde repouse os membros
Repassados do ardor do sol a pino!
Tudo é cinza e ruína, – tudo é morto!!
E tu, ó musa, que amas o deserto
E das caladas sombras o mistério,
Que folgas de embalar-te aos sons aéreos
D’almas canções, que a solidão murmura,
Que amas a criação, qual Deus formou-a,
– Sublime e bela – vem sentar-te, ó musa,
Sobre estas ruínas, vem chorar sobre elas.
Chora com a avezinha, a quem roubaram
O ninho seu querido, e com teus cantos
Procura adormecer o férreo braço
Do impróvido colono, que semeia
Somente estragos neste chão fecundo!
IV
Mas, não te queixes, musa; – são decretos
Da eterna providência irrevogáveis!
Deixa passar destruição e morte
Nessas risonhas e fecundas plagas,
Como charrua, que revolve a terra,
Onde terminam do porvir os frutos.
O homem fraco ainda, e que hoje a custo,
Da criação a obra mutilando,
Sem nada produzir destrui apenas,
Amanhã criará; sua mão potente,
Que doma e sobrepuja a natureza,
Há de imprimir um dia forma nova
Na face deste solo imenso e belo:
Tempo virá em que nessa valada
Onde flutua a coma da floresta,
Linda cidade surja, branquejando
Como um bando de garças na planície;
E em lugar desse brando rumorejo
Aí murmurará a voz de um povo;
Essas encostas broncas e sombrias
Serão risonhos parques suntuosos;
E esses rios, que vão por entre sombras
Ondas caudais serenos resvalando,
Em vez do tope escuro das florestas,
Refletirão no límpido regaço
Torres, palácios, coruchéus brilhantes,
Zimbórios majestosos, e castelos
De bastiões sombrios coroados,
Esses bulcões da guerra, que do seio
Com horrendo fragor raios despejam.
Rasgar-se-ão os serros altaneiros,
Encher-se-ão dos vales os abismos:
Mil estradas, qual vasto labirinto,
Cruzar-se-ão por montes e planuras;
Curvar-se-ão os rios sob arcadas
De pontes colossais; – canais imensos
Virão surcar a face das campinas,
E estes montes verão talvez um dia,
Cheios de assombro, junto às abas suas
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Canto da solidão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17319 . Acesso em: 23 fev. 2026.