Por Bernardo Guimarães (1872)
Em Histórias e tradições da Província de Minas Gerais, de Bernardo Guimarães, o autor reúne narrativas inspiradas em lendas, costumes e episódios marcantes do interior mineiro. Com linguagem envolvente e traços do Romantismo, a obra valoriza a cultura regional, mesclando fatos históricos e imaginação para retratar a sociedade, as crenças e o modo de vida da antiga província.
A cabeça do Tiradentes
Tradição mineira
Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio?
Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens.
Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo.
A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos.
Ah! falei-vos em caveira!...
E não é, que esta idéia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?!
Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto.
E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.
Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.
É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra.
Essa história eu a poderia intitular:
História de uma Cabeça Histórica
Era pelos fins do século passado; em 178...
Nesse tempo, esta capital de Minas, que então com justa razão tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades se podiam contar no Brasil.
Os governadores e fidalgos dessa época rodavam em ricas carruagens tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje só rincham pesados carros puxados a bois.
Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magníficas; procissões de esplendor e riqueza deslumbrantes; espetáculos teatrais, em que a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com esmero no gosto da época; uma literatura própria, se bem que um tanto abastardada pela imitação do classicismo lusitano, literatura de que foram dignos representantes nomes até hoje célebres.
Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são glórias, que nunca mais se eclipsarão.
Havia regozijos e festas de toda a espécie, muito luxo, comércio interior ativo, e o povo nadava na abundância.
E tudo isso por quê?
Porque naquela época o ouro por essas montanhas como que brotava à flor da terra.
O ouro era tão abundante, que os próprios pretos cativos, com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais de um templo magnífico, que até hoje aí estão, e as pretas, quando iam às suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha com areia de ouro.
Mas em contraposição a tudo isso, o povo gemia debaixo da mais vil, da mais infamante escravidão.
O bem-estar material era grande; mas a degradação moral era profunda.
Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e ameaçador da forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.
Acolá, no meio daquela praça pública, em face de um templo cristão, – como um sarcasmo vivo, – até bem pouco tempo se achava alçado o pelourinho, ainda mais infamante, em que o cidadão era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.
Os capitães-mores também de sua parte castigavam arbitrariamente com açoutes, com o tronco e até com a palmatória as mais leves faltas de seus governados.
O ouro extraído das minas pelo braço do povo era na sua maior parte destinado a alimentar o luxo e a cobiça de seus opressores.
Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada em proveito da metrópole.
O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de seus feitores, – os governadores, capitães-mores, guardasmores etc.
A fazenda prosperava; mas os escravos indóceis começavam a se enfadar de arroteá-la só para benefício de seus senhores.
II
E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste.
Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.
E à noite uma lanterna se acendia para alumiar o lúgubre espetáculo.
Havia dois ou três anos que este sinistro padrão da mais brutal e feroz tirania existia ali hasteado.
E por que razão esse cuidado em conservar ali tão guardado, tão vigiado, aquele triste e miserando resto de uma vítima há tanto tempo sacrificada?...
Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.