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#Comédias#Literatura Brasileira

Não consultes médico

Por Machado de Assis (1876)

CAVALCANTE — Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paixão que os médicos não têm. Oh! como eu execro os médicos! principalmente os que me mandam para a China.

D. CARLOTA — O senhor vai para a China?

CAVALCANTE — Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.

D. CARLOTA — A China é muito longe.

CAVALCANTE — Creio até que está fora do mundo.

D. CARLOTA — Tão longe por quê?

CAVALCANTE — Boa palavra essa. Sim, por que ir à China, se a gente pode sarar na Grécia? Dizem que a Grécia é muito eficaz para estas feridas; há quem afirme que não há melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vai lá passar?

D. CARLOTA — Não sei. Um ano, talvez.

CAVALCANTE — Crê que eu possa sarar num ano?

D. CARLOTA — É possível.

CAVALCANTE — Talvez sejam precisos dois, — dois ou três.

D. CARLOTA — Ou três.

CAVALCANTE — Quatro, cinco...

D. CARLOTA — Cinco, seis...

CAVALCANTE — Depende menos do país que da doença.

D. CARLOTA — Ou do doente.

CAVALCANTE — Ou do doente. Já a passagem do mar pode ser que me faça bem. A minha moléstia casou com um primo. A sua (perdoe esta outra indiscrição; é a última), a sua casou com uma viúva espanhola. As espanholas, mormente viúvas, são detestáveis. Mas, diga-me uma coisa: se uma pessoa já está curada, que é que vai fazer à Grécia?

D. CARLOTA — Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vai para a China.

CAVALCANTE — Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?

D. CARLOTA — Pensa-se nela, mas lá vem um dia em que gente aceita a vida, seja como for.

CAVALCANTE — Vejo que sabe muita coisa.

D. CARLOTA — Não sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar por paus e por pedras; mas, como é a última vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.

CAVALCANTE — Adeus, d. Carlota!

D. CARLOTA — Adeus, doutor!

CAVALCANTE — Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo.) Talvez eu vá a Atenas; não fuja se me vir vestido de frade...

D. CARLOTA (indo a ele) — De frade? O senhor vai ser frade?

CAVALCANTE — Frade. Sua mãe aprova-me, contanto que eu vá à China. Parece lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA — É difícil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE — Talvez nem a tivesse, e ninguém se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sai de um coração que padeceu também, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doido, se quiser, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto.) Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não poderia impedir que lhe acendesse uma vela.

D. CARLOTA — Não falemos mais nisso, e separemo-nos.

CAVALCANTE — A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA — Adeus; aí vem mamãe.

Cena XIII

Os mesmos, d. Leocádia

D. LEOCÁDIA — Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausência.

CAVALCANTE — D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.

D. LEOCÁDIA — O doutor veio saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.

CAVALCANTE — A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.

D. CARLOTA — Um vigário? Para quê?

CAVALCANTE — Não posso dizer.

D. LEOCÁDIA, a Carlota — Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidência.

CAVALCANTE — Não, não, ao contrário... D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.

D. LEOCÁDIA — Casar a quem?

CAVALCANTE — Não é já; falta-me ainda a noiva.

D. LEOCÁDIA — Mas quem é que me está falando?

CAVALCANTE — Sou eu, d. Leocádia.

D. LEOCÁDIA — O senhor! O senhor! O senhor!

CAVALCANTE — Eu mesmo. Pedi licença a alguém...

D. LEOCÁDIA — Para casar?

Cena XIV

Os mesmos, Magalhães, d. Adelaide7

MAGALHÃES — Consentiu, titia?

D. LEOCÁDIA — Em reduzir a China a um ano? Mas ele agora quer a vida inteira.

MAGALHÃES — Estás doido?

D. LEOCÁDIA — Sim, a vida inteira, mas é para casar. (d. Carlota fala baixo a d. Adelaide.) Você entende, Magalhães?

CAVALCANTE — Eu, que devia entender, não entendo.

D. ADELAIDE ( que ouviu d. Carlota) — Entendo eu. O dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu próprio mal, expôs sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.

D. LEOCÁDIA, a Carlota — Deveras? (d. Carlota baixa os olhos.) Bem; como é para a saúde dos dois, concedo; são mais duas curas!

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