Por Machado de Assis (1862)
Vicente resolveu não sair nesse dia, e entregar-se todo à companhia de Clara. Mas, de repente, pareceu-lhe que a alegria da moça era um insulto ao seu despeito, imaginou que ela zombara dele.
Disse-lho.
Clara ouviu a censura com altivez e silêncio.
Depois sorrindo desdenhosamente:
— És um extravagante...
Vicente arrependeu-se; quis pedir perdão à moça da suspeita, mas isso seria complicar o ridículo da situação.
Preferiu calar-se.
— Afinal de contas, disse ele, que me importa a mim o casamento? Não casei porque não quis...
E atirou-se a um livro para ler.
Não leu; folheou páginas conduzindo os olhos maquinalmente.
Fechou o livro.
Acendeu dois charutos e apagou-os logo.
Pegou em outro livro e acendeu outro charuto, e repetiria a cena se não viesse o almoço dar-lhe uma distração.
Ao almoço mostrou-se alegre.
— Sabes que estou com grande apetite? disse ele a Clara.
— Sim?
— É verdade!
— Por quê?
— Feliz, continuou Vicente, porque depois de tantos trabalhos estou ao pé de ti, e só a ti pertenço.
A moça sorriu.
— Duvidas? perguntou ele.
— Não duvido.
Vicente continuou:
— Confesso-te que durante algum tempo estive quase obedecendo ao tio, tais eram as insistências dele para que eu me casasse com a deslambida da prima. Felizmente ela namorou-se do outro; estou livre.
— Olha que rompes o guardanapo...
Vicente com efeito dera grande puxão no guardanapo...
A tranqüilidade de Clara contrastava com a agitação de Vicente, e era essa tranqüilidade um pouco cômica, que o despeitava ainda mais.
O dia passou-se do mesmo modo.
Depois de jantar Vicente dispôs-se a dormir.
— Dormir! exclamou Clara. Há de fazer-te mal.
— Qual!
— Olha, vai dar um passeio; é melhor...
— Queres ver-me pelas costas?
— Se cuidas que é isso, fica.
— Estou brincando.
Vicente estava morto por sair.
Ao chegar à rua fez mil projetos. O primeiro foi ir à casa do tio; mas arrependeu-se logo, antevendo o ridículo da cena.
Achou melhor ir a Botafogo.
Já ia entrar num tílburi, quando o projeto lhe pareceu insuficiente.
— Nada; é melhor ir à igreja; assistirei ao casamento, e ameaçarei o Correia; porque aquele patife há de pagar-me!
Encaminhou-se para a freguesia de Santo Antônio, mas parou no caminho.
— Que irei lá fazer?
Nestas alternativas escoou-se a hora.
À noite encaminhou-se para a Rua dos Inválidos, onde morava e logo de longe viu a casa iluminada.
Vicente teve um movimento de furor; levantou o punho fechado e atirou à rua o chapéu de um sujeito que passava.
— Maluco!
Vicente, que estava desesperado por descarregar em alguém a raiva que tinha dentro de si, voltou-se para o sujeito e perguntou-lhe a quem dirigia aquele epíteto. — Ao senhor! respondeu o indivíduo.
Vicente agarrou-lhe a gola da casaca, e já fervia o soco quando algumas pessoas intervieram e os separaram.
Apaziguado o conflito e dadas as explicações, seguiu Vicente pela rua adiante e deu acordo de si em frente da casa de tio.
A casa estava cheia.
De longe viu sentados em um sofá Correia e Delfina. A moça estava radiante de beleza. Vicente mordeu o lábio até deitar sangue.
Contemplou aquela cena durante alguns instantes e seguiu adiante absorto em suas meditações.
Justamente na ocasião em que principiou ele a andar, bateu-lhe em cheio a luz de um lampião, e Correia disse baixinho à noiva:
— O primo passou agora ali.
— Deveras? perguntou ela.
— Veio ver-nos.
— Vê um par feliz, disse a moça.
— Felicíssimo! exclamou Correia.
A festa do casamento foi esplêndida; durou até alta noite.
Vicente não quis saber mais nada; dirigiu-se para casa.
Ia triste, abatido, envergonhado. O pior mal era não poder atirar a culpa para cima de ninguém: o culpado era ele.
Entrou em casa pelas dez horas da noite.
Contra o costume, Clara não o esperava na sala, posto houvesse luz. Vicente vinha morto por cair-lhe aos pés e dizer-lhe:
— Sou teu eternamente, porque tu és a única mulher que me tiveste amor! Não a encontrando na sala, foi à alcova e não a viu. Chamou e ninguém lhe apareceu. Andou a casa toda e não viu ninguém.
Voltou à sala de visitas e achou um bilhete, assim concebido:
Meu caro, não sirvo para irmã de caridade de corações aflitos. Viva! Deixo ao espírito do leitor o cuidado de imaginar o furor de Vicente; de um só lance perdera tudo.
Um ano depois as situações dos personagens deste romance eram as seguintes: Correia, a mulher e o sogro estavam na fazenda; todos felizes. O capitão por ver a filha casada; a filha por amar o marido; e Correia porque, tendo alcançado a desejada fortuna pagara-a com ser bom marido.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.